Scientia Ad Sapientiam

Scientia Ad Sapientiam
“Não há homem imprescindível, há causa imprescindível. Sem a força coletiva não somos nada” - blog da retórica magia/arte/foto/imagem.

Pesquisar este blog

Sociedade da Informação, o grande arquivo do conhecimento

Leave a Comment

Sociedade da Informação - O arquivo,  o mostro e o império


A possibilidade da desinformação em processos informativos como componente intrínseco da comunicação humana. Em parte é fenômeno normal, por conta de dupla seletividade: nosso aparato perceptor capta o que lhe é viável captar, e cada sujeito capta de acordo com seus interesses. O problema está, sobretudo, na manipulação excessiva da informação, provocando efeitos imbecilizantes mais ou menos ostensivos. É o caso do advertising que pretende causar um tipo de influência imperceptível muito efetiva, porque se apóia em estratégias refinadas de conhecimento especializado. É fundamental preservar o ambiente crítico e autocrítico para poder reduzir e controlar a informação.

Utiliza-se a nomenclatura da “sociedade do conhecimento” praticamente como sinônimo de “sociedade da informação”, mesmo que esta última noção contenha, como mostra com grande verve Castells, ainda a perspectiva da “rede”. O conceito de rede está bem mais próximo do campo da informática, apontando ademais para o mundo virtual da rede não física, embora não menos real. Sem rebuscar filigranas conceituais, creio que a problemática se concentra em dois patamares mais visíveis:


a) de um lado, temos o desenvolvimento sem precedentes do conhecimento como bases emancipatória ambíguas desta sociedade, provocando condições mais favoráveis de condução autônoma, como bem mostram Böhme/Stehr em sua discussão sobre a  sociedade do conhecimento:

“O que distingue uma sociedade do conhecimento acima de tudo, do ponto de vista de suas precursoras históricas é que se trata de uma sociedade que é, a um nível sem precedentes, o produto de sua própria ação. A balança entre natureza e sociedade, ou entre fatos além do controle dos humanos e aqueles submetidos a seu controle, elevou-se de modo impressionante. Elevou-se mais e mais para as capacidades que são construídas socialmente e permitem que a sociedade opere por si mesma” (p. 19);

Embora se trate de uma trajetória de emancipação muito ambivalente, por conta dos efeitos colonizadores persistentes, não se pode evitar de reconhecer que a capacidade de condução da história aumentou  flagrantemente; o processo galopante de informatização pode ser reconhecido como seu carro chefe, porque condensa os mais evidentes impactos teóricos e práticos do conhecimento;


b) de outro lado, porém, é mister observar que outra mola mestra comparece à cena, que é a competitividade econômica baseada na produção e uso intensivos de conhecimento, revelando que a dinâmica desta sociedade do conhecimento é feita de modo preponderante pelo mercado neoliberal; em termos teóricos, estaríamos vivendo agora a “mais-valia relativa”, como assinalava Marx, fundada em ciência e tecnologia, ou seja, a produtividade econômica é alimentada essencialmente, não mais pela força física do trabalhador, mas por sua inteligência; Marx, sem fazer maiores aprofundamentos sobre a mais-valia relativa, previu que traria consigo repercussões inimagináveis no processo produtivo, embora sem desfazer seu caráter espoliativo; ao contrário, como mostram outros autores, o trabalho duro, em vez de recuar, parece, amplamente, tornar-se ainda mais dramático; enquanto para uma menor parte dos trabalhadores é sempre possível produzir mais e melhor com menos horas trabalhadas, para muitos, sob o efeito da mais-valia, é mister trabalhar ainda mais para obter ou manter os mesmos salários, cuja tendência de decréscimo é geral.

O Arquivo e o Monstro

Ou como utilizar os conhecimentos ocidentais para marginalizar

Impressão de domínio e compreensibilidade do real. Mais do que uma ação coordenada e centralizada...

A existência de um “arquivo” substitui a própria existência de um controle efetivo, mais fácil unificar dados do que o próprio território. Utopia do “arquivo imperial”. Saber compreensivo, objetividade do dado factual. Explosão documental  =  simulação da imagem total e exaustiva da realidade. O monstro e o perigo do controle. Inexistem monstros na literatura vitoriana. Drácula – o monstro – significa desvio do que é conhecido, mutabilidade da forma.

Escrito, oral ou filmado, o arquivo é sempre o produto de uma linguagem própria, que emana de indivíduos singulares ainda que possa exprimir o ponto de vista de um coletivo (administração, empresa, partido político etc.). Ora, é claro que essa língua e essa escrita devem ser decodificadas e analisadas.
Mas, mais que de uma simples "crítica interna", para retomar o vocabulário ortodoxo, trata-se aí de uma forma particular de sensibilidade à alteridade, de "um errar através das palavras alheias", para retomar a feliz expressão de Arlette Farge. É esse encontro entre duas subjetividades o que importa, mais que o terreno sobre o qual ele se dá ou o tipo de rastro que o torna possível através do tempo.

Nesse sentido, muitas vezes esquecemos que muitos arquivos escritos não passam eles próprios
de testemunhos contemporâneos ou posteriores aos fatos, dotados de um componente irredutível de
subjetividade e de interpretação que sua condição de "arquivo" absolutamente não reduz: é o caso dos autos policiais - para tomar apenas um exemplo entre os arquivos ditos "sensíveis" -, que muitas vezes são apenas o resultado de transcrições escritas e conservadas de depoimentos orais que foram objeto de uma mediação, de uma narrativa, a qual não pode senão alterar a declaração original feita pelo ator ou a testemunha interrogada. A escrita, a impressão, portanto a possibilidade de um documento resistir ao tempo e acabar um dia sobre a mesa do historiador não conferem a esse vestígio particular uma verdade suplementar diante de todas as outras marcas do passado: existem mentiras gravadas no mármore e verdades perdidas para sempre.

O Arquivo utópico. Na impossibilidade de controlar o território, produzam dados. Um grande arquivo utópico.


Finalmente, o testemunho assim como o arquivo dito escrito revelam por sua própria existência uma falta, idéia esta tomada emprestada a Michel de Certeau. O vestígio é, por definição, o indício daquilo que foi irremediavelmente perdido: de um lado, por sua própria definição, o vestígio é a marca de alguma coisa que foi, que passou, e deixou apenas o sinal de sua passagem; de outro, esse vestígio que chega até nós é, de maneira implícita, um indício de tudo aquilo que não deixou lembrança e pura e simplesmente desapareceu... sem deixar vestígio - todos os arquivistas sabem que perto de nove décimos dos documentos são destruídos para um décimo conservado. Que historiador um dia não foi tomado de desespero diante da tarefa que o espera e dos milhões de documentos a serem lidos, para, no dia seguinte, ser tomado de vertigem diante de tudo o que jamais poderá saber, de tudo o que nunca será nem "memória", nem "história"?



Monstruosidade = desconhecido.




O monstro e o Império



Entretanto, a questão mais dura refere-se ao processo manipulativo por vezes ostensivo que a sociedade da
informação nos impinge. Basta olha para a lógica do advertising: seu objetivo é claramente manipular nossas
motivações, atingindo de preferência níveis subliminares. Somos levados a comportamentos atrelados sob a
expectativa de que estamos exercendo nossa liberdade mais criativa. Rushkoff, em tom irritado, pergunta-se por que acreditamos nisso tudo de maneira tão inocente, se o pano de fundo é de nítida coerção. O problema é que se trata de coerção muito bem construída, tão bem que não se percebe como tal. Algo similar pode-se dizer do marketing, que representa estratégias inteligentes de convencimento sub-reptício, armadas com refinados processos de informação dirigida. Vivemos numa época em que o marketing se tornou cultura e a cultura marketing, enredando-se no mesmo novelo, dificultando extremamente o surgimento de contraculturas. Há ainda a queixa constante contra a invasão da privacidade, tornando tudo informação devassada, como é o caso já público e notório das câmaras eletrônicas de controle, supostamente para fins de segurança. Pode haver o lado da transparência, como quer Brin*, mas dificilmente não predomina o lado da prepotência manipulativa.

* BRIN, D. The transparent society: will technology force us to choose between privacy and freedom? Reading : Perseus Books, 1998.

O Império contra-ataca


Necessidade de mobilização de imensa quantidade de dados, mais do que um arquivo real, o arquivo imperial implica na possibilidade de qualquer arquivo. Quanto mais se envolve nas malhas informacionais do Império, mais vulnerável sua resistência.


Como não é possível fugir da manipulação, o que de melhor conseguimos até hoje é montar estratégias
abertas de controle, sabendo que controle total é impraticável, sobretudo indesejável. A contra-interpretação é o corretivo da interpretação, sempre sob risco, assim como a coerência da crítica está na autocrítica. Destarte, a manipulação menos prejudicial é aquela que se oferece à discussão aberta. Falando, por exemplo, de noticiários da televisão, alguns diriam que o “Jornal Nacional” da Globo tende a ser “oficial”, no sentido de veicular o que favorece a ordem vigente. A seletividade manipulativa da informação aparece na ênfase sobre notícias favoráveis ao status quo, bem como na maneira de arrumar as notícias e na retórica e estética que as cercam, em particular nos locutores e efeitos especiais. É imbecilizante no sentido de que nos tolhe a visão crítica, fazendo-nos crer que a maneira mais atraente de dar notícia é a própria. Desfaz seu caráter disruptivo, induzindo-nos à acomodação. Outros noticiários também são manipulativos, por certo, mas podem, em seu contraponto, conclamar algo de espírito crítico e, quando menos, não ser tão manipulativos.
Marcas globais que vendem notícias
Marcas globais que vendem notícias hegemônicas


No pano de fundo de todos, tremula a bandeira certa do mercado:
notícia de verdade é aquela que vende.





Heróis e vilões em papéis trocados


O Conde Drácula não é capturado por sua incapacidade de controlar os fluxos informacionais, sua vulnerabilidade encontra-se na necessidade de mediações culturais e físicas no deslocamento para o centro do mundo imperial. Sua mutabilidade é transformada em novos conhecimentos pelo Império. Neste sentido, não seria correto falar de “contaminação”, porque a ambiguidade é intrínseca ao fenômeno comunicativo, como qualquer hermenêutica atestaria sem maiores problemas: todo processo interpretativo supõe um sujeito culturalmente contextuado. Desinformar faz parte da informação, assim como a sombra faz parte da luz. Trata-se do mesmo fenômeno, apenas com sinais inversos. Estudos sobre a tessitura do conhecimento apontaram freqüentemente para esta característica ambivalente, a começar pela idéia de “conhecimento proibido”. Esta noção tão comum na sociedade e em muitos de seus mitos e narrativas religiosas (por exemplo, no Gênesis, o pecado propriamente dito de Adão e Eva foi comer da árvore do conhecimento), aponta para a periculosidade própria do conhecimento: quanto mais inovador, menos bem comportado. Emancipar-se, com efeito, implica capacidade de confronto, quebra da ordem vigente considerada impositiva e injusta, consideração de alternativas.

Sua face disruptiva parece evidente, porque conhecer implica intrinsecamente questionar. Sua tendência desconstitutiva é frontal, embora possa ser facilmente dissimulada.

Questões


   
  • Você consegue agora perceber melhor as relações entre racionalidade, cultura e poder?
  • De que forma as relações de poder passam pelo controle informacional?
  • É possível pensarmos hoje em um novo colonialismo informacional? Em que termos?
  • Como ajuda a um futuro profissional da informação entender esse controle?




Vulnerabilidade = ignorância

A inteligência está na habilidade de lidar com a ambivalência. Aprender é sobretudo saber pensar, para além da lógica retilínea e evidente, porque nem o conhecimento é reto, nem a vida é caminho linear. Saber criar depende, em grande parte, da capacidade de navegar em águas turvas, saltar onde menos se espera, vislumbrar para além do que é recorrente. A informação não pode ser receita pronta, mas o desafio de a criar, mudar, refazer. O risco de manipulação é intrínseco, mas é no risco que podemos reduzir a manipulação.

A sociedade da informação informa bem menos do que se imagina, assim como a globalização engloba as pessoas e povos bem menos do que se pretende.


Na sociedade da mercadoria, mercadoria vem antes. A informação é em si ambivalente, tanto em quem a pronuncia, quanto em quem a recebe. Em todos os momentos passa pelo filtro da subjetividade, além de sua dimensão estar limitada pelo aparato perceptor e conceitualizador. Mas é esta ambivalência que resgata
sempre a possibilidade de criar, inventar. Se tudo fosse apenas lógico, seria apenas repetitivo. O mundo da informação é agitado, conturbado, porque é, ao mesmo tempo, intrinsecamente manipulado e impossível de ser totalmente manipulado.

A matriz é real

Poderia ser uma história em quadrinhos ou um conto de fadas, mas não é. A Matrix é real e está no controle do sistema para inevitavelmente eliminar o ser humano, consumindo toda sua energia vital transformada em lucro para sustentar os donos do sistema. {In}felizmente o ser humano tem a capacidade de escolha. E a raça humana poderá decidir qual será seu futuro. Enquanto isso guerreiros surgem e apavoram o status quo das leis e das regras do jogo impostos pelo mercado. Este sim é o dono do jogo, o Estado é seu juiz e a sociedade é o tabuleiro. Você, um simples peão. 

Na  sequencia de imagem abaixo vemos um deses personagens da vida real.

Poderia ser o NEO de MATRIX, mas é apenas um cidadão fugindo dos capatazes do Estado, aplicando uma belíssima voadora no agente Smith e escapando pela única saída possível: a busca por sua liberdade.


E a vida continua...



Fontes:
Thomas RICHARDS.O arquivo e o mostro. The imperial archive: knowledge and the fantasy of empire. London, New York: Verso, 1993.
Pedro DEMO. Ambivalências da sociedade da informação. Ci. Inf., Brasília, v. 29, n. 2, p. 37-42, maio/ago. 2000
Henry ROUSSO.O ARQUIVO OU O INDÍCIO DE UMA FALTA. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 17, 1996

0 comentários:

Postar um comentário

Deixe seu comment e colabore para expansão do conhecimento coletivo

_hedonism_taken_serious

by The Hedonist Cover Art: "Portrait of Sun Ra", oil on canvas by Paul David Elsen

World_cloud

banner

Louco ou criativo, depende de que lado voce está.
Inovador ou bizarro, ousado ou abusado, diferente ou excêntrico, qual sua imagem?

Top_blog