Esse documentário começou a ser filmado um ano atrás, de forma independente, com pouquíssimo recurso conseguido através da produção de um evento cultural. A equipe abriu mão de seus salários e os equipamentos foram cedidos gratuitamente. Percorremos as comunidades do Vidigal, Vila Autódromo, Providência, toda a Zona Portuária do Rio de Janeiro e o Maracanã, obtendo diversas imagens, entrevistando muitos moradores, participando de reuniões, debates e conflitos. Além disso, entrevistamos o professor Carlos Vainer do IPPUR/UFRJ, pesquisador de megaeventos, o Deputado Estadual Marcelo Freixo e o Deputado Federal Romário.
Nesse período, investigamos para onde estão indo todos os bilhões investidos no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, visando a Copa do Mundo e as Olímpiadas. Está muito claro para nós, que grande parte desse dinheiro sairá dos cofres públicos e servirá para enriquecer um grupo muito restrito de empreiteiros, políticos, bancos e empresários envolvidos com esses megaeventos. O legado que vai ser deixado para a população é muito pequeno. E o pior de tudo: várias comunidades estão sendo removidas, ilegalmente, das áreas de forte interesse imobiliário para periferias distantes, sem nenhuma infraestrutura e dominadas por milícias fortemente armadas e extremamente violentas.
Pretendemos aprofundar a pesquisa e o debate sobre esse processo, mas fazer cinema é complicado e os equipamentos são caros. Os meios de financiamento no Brasil são oriundos de leis de incentivo/editas que envolvem o governo ou grandes empresas, que jamais apoiariam projetos como o nosso. Estamos tentando o financiamento coletivo para prosseguir com o filme.
Publicado em 14 de jun de 2014 no YouTube
Entre 2011 e 2014, o documentário investigou as transformações no Rio de Janeiro por conta dos megaeventos: UPPs nas favelas, remoções forçadas, privatizações de espaços públicos e revoltas populares.
Gostaríamos de agradecer o apoio e a paciência de todas as pessoas que participaram e contribuíram com o projeto. O documentário está disponível para download e qualquer utilização sem fins lucrativos da obra está previamente autorizada.
Baixem, copiem, e exibam!
Música: "Subconsciente" por BNegão & Seletores de Frequência (Google Play • eMusic • iTunes)
Dividir para conquistar - divide to conquer
Public Domain (Domínio Público)
We started filming this documentary a year ago, independently, with few resources we obtained by producing a cultural event. The team did not earn a salary, and we used equipment free of charge. We went through the favelas of Vidigal, Vila Autódromo, and Providencia; to the port zone of Rio de Janeiro; and to Maracanã stadium, capturing multiple images, interviewing many residents, and participating in meetings, debates, and conflicts. In addition, we interviewed Professor Carlos Vainer at the Institute of Research and Urban and Regional Planning at the Federal University of Rio de Janeiro (IPPUR / UFRJ), an expert on mega-events; and congressmen Marcelo Freixo and Romario.
During this period, we investigated where the billions invested in Brazil will be going, especially in Rio de Janeiro – in preparation for the World Cup and the Olympics. It is very clear that much of this money will come from public resources and will serve to make rich a very small group of contractors, politicians, businessmen, and banks involved in these mega events. The legacy that will be left for the Brazilian people is very small. And worst of all, many community members are being illegally evicted from areas of high value for real estate and other forms of investment – to distant urban peripheries which lack infrastructure and services, and are dominated by heavily armed and extremely violent militia.
If you think you can do something to change this situation but do not know what to do, collaborate with us on this project.
Créditos:
Direção: Fausto Mota, Raoni Vidal e Henrique Ligeiro Produção: Fausto Mota Ass. de Produção: Katu Franco Som Direto: Henrique Ligeiro Som Adicional: Lucas Silveira e Cedric Aveline Câmera: Victor Zaiden, Fernando DeMello, Diego Sobral, Liliu, Tomás Camargo, Paulo Gouvea, Bruno Franklin, Raoni Vidal e Fausto Mota Montagem: Raoni Vidal e Fausto Mota Ass. de Montagem: André Romiszowski Produção de Finalização: Raoni Vidal Edição de Som: Henrique LigeiroMúsica: “Bahia” do Quinteto São do Mato Design Gráfico: Raoni Vidal e Márcio Heider
A campanha “Quem são os proprietários do Brasil?” www.proprietariosdobrasil.org.brjá impulsionou uma grande onda de mobilização, repercussão e receptividade pelo Brasil afora e em outros países também. Durante a primeira fase do projeto, mostramos como o Ranking Proprietários do Brasil é de fato uma ferramenta importante para a transformação social, capaz de auxiliar nossa compreensão sobre as grandes forças do poder económico na sociedade brasileira.
Agora, queremos ir além. Sem aumentar o valor solicitado, e afim de acolher sugestões e críticas recebidas neste primeiros meses de debate sobre a campanha, conseguimos reformular o projeto para incluir também as 100 empresas de capital fechado com maior faturamento e cruzar todos estes dados com os financiamentos de campanha, repasses do BNDES e do governo federal. Vamos ainda produzir 10 análises de poder com infográficos sobre as relações de empresas e melhor ainda mais a plataforma, facilitando a consulta às informações do Ranking.
A relevância da campanha “Quem são os proprietários do Brasil?” já foi reconhecida por importantes pensadores, como Francisco de Oliveira, Boaventura de Sousa Santos e Ladislau Dowbor. Grandes veículos de comunicação, como o Estadão, a Revista Exame e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), também divulgaram a iniciativa. Porém, se alcançamos quase 50% da meta estipulada, foi graças ao apoio de cidadãos comuns que, como nós, querem mais transparência sobre o poder econômico e político - uma vez que optamos por não aceitar patrocínios de empresas ou do governo, afim de preservar a independência da iniciativa.
Confira os acréscimos que fizemos agora em relação ao primeiro projeto:
Ampliação do banco de dados da plataforma para incluir:
_Dados das 100 maiores empresas fechadas em faturamento
_Dados de doações eleitorais de 2010 e 2012
_Dados de financiamentos do BNDES de 2008-2012
Dados dos repasses do governo federal de 2005 a 2012
Produzir 10 análises de rede de poder com infográficos:
_5 escolhidas por voto no Fórum de debates do portal _5 em apoio às lutas concretas de movimentos sociais
iraniano de 80 anos, que não toma banho há 60 e escolheu viver isoladamente no sul do Irã, no província de Fars, segundo o Tehran Times.
Come carne de porco podre e fuma um cachimbinho de fezes animais, numa dieta pós-apocalíptica de fazer inveja a qualquer possível sobrevivente. Um homem deslocado no tempo, de qualquer tempo. E o bicho vai sentir falta da Souza Cruz corp. Seu único vício assumido consumista nas fotos abaixo. O ser humano surpreende.
Se apertarem "aquele" botão e o mundo for para os ares, esse homem sobreviverá, sem os cigarrinhos artificiais, só nos naturebas!
Dois amigos conversavam. Amigo, onde tem um cabra parado, outro pára pois pensa que é uma fila. Outro pergunta: Mas fila pra quê? O primeiro diz: Sei lá... Se a fila tá grande é porque deve ser coisa boa, saca?
Brasileiro é esperto, gosta de tirar vantagem. Malandragem é tanta que não sabe onde começa e nem termina seu direito. Prefere pagar antes por algo - privilegiado pensa - quando na verdade o serviço é gratuito. Ou pior, paga pois pensa que o serviço público é bom pois é pago, quando na verdade já está pagando duas vezes. Só em um povo "esperto", acostumado a ser escravizado, é que se instauram boatos que viram verdades, a partir da ânsia por serem libertados.
Gostaria de manifestar aqui que acredito muito na força do momento que podemos participar. Diria até que melhor momento não há para se fazer parte. E melhor é estar em um ambiente acadêmico. Pois.
As discussões estão ligadas pela força inerente as nossas convicções, também as legítimas reivindicações.
Não devemos porém crer que a coisa vai andar sozinha, guiada pela direção do vento, mas por um bom timoneiro. Quem é este?
Digo com convicção que este não deve ser nenhum dos que aí estão no governo, no governo da instituição chamada Brasil. E a barca não é fácil nem possui manual de instruções. Mas temos todas as condições para assumir o controle, só não deixe de me perguntar como.
A nossa força reside justamente na união e na partilha do conhecimento em cooperação que levará nosso país ao rumo certo. Chegou a hora de mudar a lógica da divisão, da competição, do conflito, da luta pela sobrevivência, nada mais justo lutar para sobreviver, porém sob bases protocooperativas.
De certo que as bases que farão esse ajuste na direção não advirão das antigas normas de construção de ideais. Nós sabemos que o capital está falido. Sabemos que o sistema é forte mas está caótico. E que políticos não desejam reformar sua política porque isso feito, implica em um tiro no próprio pé. Alguém tem alguma dúvida sobre isso?
São novas as normas que devem emergir do âmago das questões expostas nas ruas. Que são tão claras como estão claras as respostas evasivas daqueles que pretendem respondê-las, sem imergir verdadeiramente na resolução do inevitável - o caos que precede a mutação.
Não serão referendos nem plebiscitos, nem novas leis ou nova constituição que arrumarão a casa. Esta precisa ser esvaziada completamente e reocupada novamente, como um mal que é cortado pela raiz. E ninguém disse para você ao certo qual deverá ser cortada primeiro. Caberá à nós a força necessária para arrancar as mais profundas raízes desse mal que insiste em suas ramificações. Se vamos ao trabalho ou se vamos a luta, o que seria indispensável ao entrar no campo das batalhas, no campo das conquistas e das realizações?
Como já disse, temos as ferramentas e um inacreditável indicador a nosso favor - a hora é agora, o tempo chegou e está correndo mais rápido do lado de lá. Pragmático, pois a verdadeira necessidade em criar do zero o tempo que será nosso. Que seja ideológico até quando tivermos a capacidade de concebê-lo. Então, acredito que amanhã e depois estará em nossa consciência - e essa é a dádiva - que nos permite estar aqui e agora fazendo a nossa própria história! Vamos pra rua conquistar o que já é nosso!
Para quem deve estar se sentindo de saco cheio de textos
científicos ou excessivamente técnicos.
Especialmente referente a última aula de sociologia, onde
partiu-se do fato consumado de que onde há sociedade, lá também haverá conflito. Veja de onde vem a raiz desse
problema, aparentemente sem solução, segundo a visão deste pensador abaixo.
O que você esta fazendo com a sua vida?
Passagens selecionadas sobre as grandes questões que nos afligem.
Ensinar é a mais nobre das profissões, se é que se pode
chamar essa atividade de profissão. É uma arte que requer não somente
capacidade intelectual, mas paciência e amor infinitos.
Quando somos realmente instruídos, compreendemos nosso
relacionamento com todas as coisas – dinheiro, bens, pessoas, a natureza – no vasto
campo da existência.
Sei que você, jovem, pode achar difícil decidir o que de
fato ama fazer, porque quer fazer muitas coisas. Quer ser engenheiro, piloto de
aviões cruzando o céu azul ou, talvez, um famoso orador ou político, ate quem
sabe um arquivista [isso fui eu quem escreveu]. Pode querer ser pintor, químico,
biólogo, poeta ou carpinteiro. Talvez queira trabalhar com a cabeça, ou
produzir algo com as mãos. Alguma destas coisas é o que você realmente ama. Ou seu
interesse é meramente uma reação à pressão social?
Como descobrir?
O verdadeiro propósito da educação é ajudá-lo a descobrir o
que quer, para que você, quando for adulto, possa se entregar de mente, coração
e corpo aquilo que realmente ama fazer.
Descobrir o que realmente gosta de fazer exige bastante inteligência,
porque, se tiver medo de não ser capaz de ganhar a vida, ou de não se encaixar
nessa sociedade podre, nunca descobrirá. Mas, se não tiver medo, se recusar-se
a serem puxados para o caminho da tradição por seus pais, professores, pelas exigências
superficiais da sociedade, você poderá descobrir o que realmente ama fazer. Portanto,
para descobrir, você não pode ter medo de não conseguir sobreviver.
Mas muito de nos tem esse medo. O que será de mim se eu não fizer
o que meus pais querem, se não me encaixar na sociedade, perguntam-se. Com medo,
fazemos o que nos mandam fazer, e nisso não há amor, há apenas contradição, e
esta contradição intima é um dos fatores que criam ambição destrutiva.
Desse modo, a função básica da educação é ajudá-lo a
descobrir o que realmente ama fazer, para que você entregue a mente e o coração aquilo, porque isso cria
dignidade humana, varre para longe a mediocridade, a mesquinha mentalidade
burguesa. Por essa razão é tão importante ter os professores certos...
Descobrirão a resposta quando amarem o que estão fazendo. Se
você é engenheiro porque precisa ganhar a vida, ou porque seu pai ou a
sociedade esperam isso de você, esse é outra forma de compulsão, e compulsão,
sob qualquer forma, cria contradição, conflito.
Mas se você realmente ama ser engenheiro, ou cientista, ama plantar uma árvore,
pintar um quadro, ou escrever uma poesia, não para ser admirado, mas apenas
porque ama o que faz, então descobrirá que não está competindo com ninguém. Penso
que este é o segredo: amar o que se faz.
...
A verdade é o catalisador para cessar o conflito
"Em uma sociedade basicamente errada, não pode haver meio de
vida correto".
O que está acontecendo no mundo atualmente?
Nosso meio de vida, qualquer que seja, leva à guerra, à miséria
geral e à destruição, e isso é perfeitamente óbvio. Nossa ocupação, seja qual
for, contribui inevitavelmente para que haja conflito, decadência, implacabilidade e sofrimento.
Então, a atual sociedade é basicamente errada, fundada na
inveja, no ódio e no desejo de poder, de modo que cria meios de vida errados,
como as profissões de soldado, policial, advogado. Por sua própria natureza,
essas profissões são um fator de desintegração da sociedade, e quanto mais
soldados, policiais e advogados, mais evidente se torna a decadência da
sociedade. No mundo todo há cada vez mais soldados etc... e os homens de negócios
os acompanham.
Tudo isso precisa ser mudado para que seja fundada uma
sociedade correta, e achamos que essa é uma tarefa impossível.
Não é, mas somos você é eu que temos que cumpri-la.
Hoje, qualquer meio de vida que escolhamos cria infelicidade
para um outro ou contribui para a destruição da humanidade, como vemos
diariamente.
Como pode isso ser mudado?
Só haverá mudança quando você e eu não estivermos buscando
poder, quando não formos invejosos, cheios de ódio e antagonismo.
Quando, em nossos relacionamentos, causamos alguma transformação,
estamos ajudando a criar uma nova sociedade formada por pessoas que não estão pressas à tradição, que não pedem
nada para si mesmas, que não estão em busca de poder, porque são ricas por
dentro, encontraram a realidade. Só o homem que busca a realidade pode criar
uma nova sociedade, só o homem que ama pode transformar o mundo.
Quem quiser estudar sobre os fundamentos do pensamento universal, tanto do oriente quanto do ocidente, e as bases filosóficas nas quais nossa sociedade foi formulada, sobretudo na visão de grandes sábios e não somente em escolas científicas ou filosóficas e religiosas, deve considerar este link, organizado sobre a trajetória de Gurdjieff:
Seria mais fácil enrolar o céu com um pano do que obter a verdadeira felicidade sem o conhecimento de Si Próprio.
Upanishads
Quando comecei a meditar, eu estava tomado por ansiedades e medos. Sentia deprimido e com raiva.
Muitas vezes eu descarregava essa raiva na minha primeira mulher. Após duas semanas de meditação, ela se aproximou de mim e disse: “O que está havendo?”. Fiquei quieto por alguns instantes. Até que perguntei: “O que quer dizer?”. Ela continuou: “A raiva, aonde foi parar?”. E eu nem tinha notado a mudança...
Costumo chamar esse tipo de depressão e raiva de Sufocante Traje de Borracha de Palhaço da Negatividade.
Ele é sufocante e a borracha fede. Mas logo que você começa a meditar e a mergulhar mais fundo, o traje de palhaço se dissolve. E quando começa a dissolver, finalmente você se dá conta do quanto esse traje é pútrido e fétido. E quando ele se dissolve completamente você tem a liberdade.
A raiva, a depressão e o sofrimento são muito bonitos nos enredos, mas venenosos para os artistas e quem trabalha com arte.
São como torniquetes para a criatividade. Se você estiver preso neste torniquete, vai ser difícil se levantar da cama e mais ainda vivenciar o fluxo de criatividade e idéias.
Para criar é preciso ter clareza. Vocêtem que ser capaz de pegar as idéias.
As idéias são como peixes
Se você quer pegar um peixinho, você pode ficar em águas rasas. Mas se quiser um peixe grande terá que entrar em águas profundas. Quanto mais fundo mais poderosos e mais puros são os peixes.
Peixes enormes, abstratos e, realmente maravilhosos. Quanto mais você expande a consciência, a atenção, mais fundo é o mergulho nessa fonte, e maior o peixe que você pode pegar.
Meus 33 anos de pratica no programa de meditação Transcendental têm sido fundamentais para o meu trabalho com arte, e para todas as áreas da minha vida. Para mim, isso é uma forma de mergulhar mais fundo em busca do peixe grande.
Fonte: extraído do livro Em Águas Profundas, de David Lynch, editora Gryphus.
The only limitations we have as a human race is those wich we impose upon our selves...
As únicas limitações que temos como raça humana são aquelas que impomos a nós mesmos
Chico Science encontra Josué de Castro: Recife sob o signo do homem-caranguejo
por Moisés Neto
Citado nas letras de Science e em depoimentos que o poeta registrou na mídia, o cientista e professor Josué de Castro, recifense morto em 1973, é o autor do romance Homens e Caranguejos (1966) o qual foi lido por Chico com avidez enquanto formulava o conceito mangue. Este romance descreve o cotidiano de uma comunidade erguida num manguezal do bairro de Afogados, Recife na primeira metade do século XX. São pescadores de caranguejos, pessoas que tiram do mangue seu sustento. Suas casas construídas com o massapé, madeira e palha do local e sua principal alimentação os caranguejos, até as crianças eram criadas tomando mingau feito com o caldo (o “leite da lama”) destes bichos que “fervilhavam” nas margens do Capibaribe.
Seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejos. Seres anfíbios – habitantes da terra e da água, meio homem e meio bichos [...] parados como os caranguejos na beira da água ou caminhando para trás como caminham os caranguejos [...] habitantes dos mangues [...] dificilmente conseguiriam sair do ciclo do caranguejo, a não ser soltando para a morte e, assim, afundando-se para sempre dentro da lama [...] essa fossa pantanosa onde aguarda o Recife (CASTRO: 2001, p. 10-11).
A visão de Josué é ao mesmo tempo perturbadora e dinâmica. Expõe a fome de um povo que ao mesmo tempo brinca com o bumba-meu-boi, o pastoril, o maracatu e outros folguedos (p. 113) planejam uma revolução que tome a cidade das mãos dos ricos poderosos e dos políticos, mostrados como hipócritas e ladrões. O mangue aparece antropomorfizado:
agarrando-se com unhas e dentes (...) gamas fincadas profundamente no lado [...] cabeleira verde [...] braços numa amorosa promiscuidade [...] luta constante com o mar como se fossem trapos de ocupação” (ibid. p. 12).
Este clima de mangue vivo onde o vegetal, mineral e animal se confundem influenciou profundamente as concepções de Chico e Fred 04. O próprio manifesto “Caranguejos com cérebro” é calcado neste tema, este ninho de lama que Josué comenta: “onde brota o maravilhoso ciclo do caranguejo” e onde O bumba-meu-boi era apenas um pesadelo de faminto sonhando com boi-fantasma, que cresce diante dos seus olhos compridos, mas cujas carnes desaparecem de baixo das apalpeladas das suas mãos... (ibid. p. 21).
A representação do Recife nesta obra influência de João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardozo e Ascenso Ferreira. Ele descreve o cotidiano daqueles que migraram de sertão e da zona da mata para o Recife e aqui se misturaram aos miseráveis da metrópole.
São balaieiros carregando frutas e verduras, que vivem entre mosquitos e urubus, rostos magros, morenos, olhos negros e profundos, na Comunidade de Aldeia Teimosa onde alguns sonham com a revolução do proletariado. Lembremo-nos que quase 40 anos depois, em 2003, 54,9% da população do Recife ainda morava em favelas segundo o Jornal do Commercio (GÓIS, Ancelmo.“Recife-Favela”, Jornal do Commercio.Cad. 1, pág. 2, 29.09.03) – Segundo pesquisa do Ibam / Banco Mundial.
Corrosiva e às vezes sarcástica, a ironia do autor mistura-se ao lirismo de um final onde o menino João Paulo integra-se repentinamente à luta armada e desaparece no meio do combate à beira do mangue, às margens do Capibaribe, em seu desejo de libertação no meio daquele cheiro frio de lama podre, de terra morta em decomposição. E o narrador conclui:
São heróis de um mundo à parte. São membros de uma mesma família, de uma mesma nação, de uma mesma classe: a dos heróis do mangue (ibid. p. 43).
A palavra “nação” e este senso de comunidade com espírito revolucionário deve ter incendiado as idéias de Chico e seu ideal de representação do Recife. Muitos pescadores de caranguejos no romance cobriam-se de lama com a finalidade de fugir dos mosquitos. No clipe da música “Maracatu atômico” Chico e a Nação Zumbi aparecem cobertos de lama, como numa alusão aos pescadores do mangue. Ouso de neologismos também serviria de inspiração a Science, por exemplo: verbo “jiboiar”, ao se referir a capacidade da jibóia de engolir “um homem inteiro” e passar um mês digerindo-o (p. 61). Chico cria o verbo (neologismo) “urubuservar” na introdução de “Maracatu de tiro certeiro”, na parceria com Jorge du Peixe (CSNZ, 1994). Outro ponto em comum seria a zoomorfização: homens e bichos se confundem na narrativa de forma implacável. Science vai resgatar isto também em sua obra, só que forma menor naturalista e mais caricata. Os mocambos, descritos por Josué, aparecem também na lira scienciana como símbolo da moradia, do pobre no Recife.
Enquanto Josué opta por uma visão pessimista, o trabalho de Science, é, de certa forma, quixotesco. Os monstros contra os quais investe suas armas são produtos tanto da realidade quanto da sua mente e na sua obra encontramos o ser metamorfoseado. Se os heróis de Josué são frustrados, os de Science celebram a vitória sígnica:
A façanha de ser prova: consiste não em triunfar realmente – é por isso que a vitória não importa no fundo -, mas em transformar a realidade em signos. Em signo de que os signos da linguagem são realmente conforme às próprias coisas [...] o poeta é aquele que, por sob as diferenças nomeadas e cotidianamente previstas, reencontra os parentes subterrâneos das coisas” (FOUCAULT: 2002, p. 64-67).
O mangueboy Chico e as personagens do lugar-mangue recriado por Josué parecem se articular num mesmo contexto de realidade mágica e desgraçada. Ambos tateiam em busca de saída e de fazer a linguagem romper seu parentesco com a realidade opressora e terminam criando uma alegoria, instaurando um pensamento novo. E assim surge uma reviravolta cultural na cidade do Recife, marca-se um estilo, uma época, um período, uma ruptura, uma descentralização, um deslocamento. Algo que rompesse estruturas arcaicas. Hoje analisamos o Mangue já com um certo distanciamento daquele período, mas é possível detectar onde deu-se a ruptura e quais as suas possibilidades. Vejamos o que Foucault argumentou sobre esta questão da divisão da cultura em períodos:
Pretende-se demarcar um período? Tem-se porém o direito de estabelecer, em dois pontos do tempo rupturas simétricas, para fazer aparecer entre elas um sistema contínuo e unitário? A partir de que, então, ele se constituiria e a partir de que, em seguida, se desvaneceria e se deslocaria? [...] que quer dizer inaugurar um pensamento novo? [...] uma cultura deixa de pensar como fizera até então e se põe a pensar outra coisa e de outro modo [...] o problema que se formula é o das relações do pensamento com a cultura. (ibid., p. 69).
A ruptura que podemos observar nos estudos de Josué aponta para a desigualdade econômica como responsável pelo fenômeno social da fome numa época em que se acreditava que ela resultava do acelerado crescimento populacional desproporcional ao aumento dos recursos naturais, já Science e outros poetas do Manguebeat lutavam por romper com os feudos culturais que estagnavam Recife com seus discursos reacionários. Josué foi deportado pela ditadura nos anos 60, mas seu legado serviu de base para os mangueboys que sedimentaram sua luta e unindo estas idéias à música e à poesia no início dos anos 90. Letras como “Rios, pontes e overdrives”, “Antene-se”, “Da lama ao caos”, “Risoflora”, “Manguetown”, “Corpo de lama” e outras são exemplos do que estamos afirmando. Elas se aproximariam o que Foucault questionou como sendo “ruptura”, inauguraram o “pensamento novo” e buscaram novas relações entre o pensamento e a cultura.
A cultura popular foi sacudida pela nova Cena. O governo logo percebeu que seria conveniente apoiar os mangueboys. Inicia-se a fase das negociações. O antigo regime parece querer cooptar a nova revolução, mesmo olhando-a meio de banda. E Science inicia negociações com Ariano Suassuna, dialoga com Alceu Valença. Nos moldes do antropólogo Renato Ortiz a tradição e modernidade mesclam-se no Brasil, país onde a ruptura nunca se realiza plenamente nem deixa de ser tentada, como aconteceu nos anos 60 com a Tropicália e o Cinema Novo.
A movimentação política, mesmo quando identificada como populista, impregnava o ar, impedindo que os atores sociais percebessem que sob os seus pés se construía uma tradição moderna (ORTIZ: 2001, P. 110).
Como ressaltamos antes, o Mangue, em plenos anos 90, ainda ressaltava ícones como cangaceiros e reforçava mitos como o do nordestino ser um tipo desengonçado, mas não é uma poesia, nem uma música, que expresse conformismo, ou que demonstre uma unidimensionalidade das consciências. É uma postura construtiva que surge no auge do poder da indústria cultural sobre as massas, o final do século XX. Fala de conflitos e exige a luta dos desfavorecidos numa sociedade que pode ser vista sob diversos ângulos. A ação é considerada na poesia do mangue como foco central na orientação dos comportamentos, estimula-se a realização das vontades e a retomada do espaço público.
Uma posição mais extremada é certamente a de Adorno, quando descreve a sociedade de massa, como um espaço onde praticamente não existem mais conflitos, uma vez, que a luta de classes deixa de existir e a própria possibilidade de alienação se torna impossível. Sociedade marcada pela unidimensionalidade das consciências, o que reforça a integração da ordem social e elimina a expressão dos antagonismos (ibid. p. 150).
O Mangue carrega consigo a idéia de libertação que não se vincula a uma classe específica, embora o universo poético centre-se nos pobres, mas na mente de todos. Propõe a transformação da própria concepção do que é cultura, justamente numa época de mudança de parâmetros na economia global com o fim da Guerra Fria.
Marcada pelos estigmas da contracultura a poesia de Science exibe o ridículo e o êxtase do ser e anda na corda bamba entre o racional e o irracional. Como entender essa discrepância? Minha tese é de que Science propôs a redefinição desses e outros conceitos. Sua arma, como Barthes tanto sugeriu como sendo a melhor para se revolucionar, foi a linguagem. E Chico usou a língua do povo do Recife. Como Josué foi buscar nas camadas de baixa renda da população da cidade o motivo da estagnação dessa metrópole-lama.
II
De algum modo, a representação do Recife uma obra de Science comprovou o primado do significante sobre o significado, da significação sobre a representação, da semiose sobre a mimese. Não se buscava a realidade e sim autonomia da língua em relação à realidade, o signo em fragmentada relação com o seu objeto, como se o referente não existisse fora da linguagem e dependesse da interpretação. Detectamos função poética colocando em evidência o lado palpável dos signos e tornando evidente que o poeta selecionou e combinou de modo particular e especial as palavras para daí obter um ritmo, que lhe era intuitivo. Chico escutou muitos tipos de música e tinha aptidão nata para trabalhar a linguagem de forma musical. Por ter tido contato com comunidades de baixa renda como as de Peixinhos, Rio Doce, Ilha do Maruim e outras do Grande Recife, ele absorveu o linguajar, a sonoridade e aproveitou-se da psicodelia para ressaltar o inusitado das imagens. Recife perdia o peso do ser, se esvaziava e se enchia tornando-se diferente a cada verso como se existisse no mundo numa hora estranha onde ontem, hoje e amanhã se confundiam.
No trabalho poético com o signo lingüístico, o significante Recife é substituído às vezes por “Manguetown” como num rompimento de um contrato e a celebração do novo signo como meio de superar ou resolver uma dificuldade. A esperança é camuflada pelo gozo de ser expresso na exploração máxima da sonoridade das vogais, alongando-as e interpretando as palavras como se houvesse uma exclamação após cada uma delas. O senso de espetáculo e/ou festa parecem impregnar cada uma das composições. Um atrevido arrebatamento é posto em ação. O “real” da vida ou o que seria o “referencial” transformado em linguagem torna-se aventura festejada.
Ao comentar os textos de Barthes e Mallarmé, o professor Antoine Compagnon comenta algo que em muito se assemelha com o nosso estudo sobre Science:
Barthes cita, em nota, Mallarmé para justificar essa exclusão da referência e esse primado da linguagem, porque é exatamente a linguagem, tornado-se, por sua vez, a protagonista dessa festa um pouco misteriosa, que se substitui ao real, como se fosse necessário, ainda assim, um real. E na verdade, salvo se conduzirmos toda a linguagem a onomatopéias, em que sentido ela pode copiar? Tudo que a linguagem pode imitar é a linguagem: isso parece evidente (COMPAGNON: 2001, p. 101).
Poesia e realidade transformadas em produtos comerciais onde o que parecia imitado não eram os habitantes do Recife, mas a ação deles, o modo como eles se expressam. Muito mais o artefato sonoro-poético produzido pelo “imitador” (Chico) do que o objeto imitado, o homem pobre e a cidade estigmatizada. No arranjo que o poeta faz não importava mais se sua interpretação era fruto do engajamento ou da alienação. A natureza, o lugar, a poesia, a cultura e a ideologia parecem de tal forma estar amalgamados, que, olhar o que aconteceu no Recife de Chico Science faz-nos muito mais pensar no que poderia ter acontecido. O absurdo poeta-caranguejo era persuasivo ao desconstruir antigos conceitos de representação da cidade ou da “terra dos altos coqueiros / de beleza soberba estendal”, da “nova Roma, de bravos guerreiros / Pernambuco / imortal, imortal” como está na letra do livro de Pernambuco, cujo autor é Oscar Brandão da Rocha.
Por isso não abordamos Science com uma aparelhagem estruturalista: optamos pelos estudos culturais, por analisar a postura do poeta diante de um contexto que lhe era adverso e como ele reverteu esta situação através da blague, do humor afrociberdélico numa particular interpretação daquele momento, o final do segundo milênio, os anos 90 na Manguetown, provocando nova ilusão ao substituir a realidade pela sua representação.
São paradoxais as relações da poesia de Chico com o Recife: não podem ser definidas nem como miméticas nem como antimiméticas. A cidade recriada parecia com a anterior depois de teatral metamorfose. Seria impossível, neste caso, eliminar totalmente a referência, mas a urbe aparece como alucinação, ficção, ilusão poética como num show de mágica: “sumiu”, “voltou” mas não é a mesma: é um truque. Havia relações, agenciamentos, mas era o Recife como se fosse outra cidade e o habitante transforma-se em turista acidental ou espectador de si mesmo, ouvinte da própria história que parecia só existir por estar sendo recontada daquele modo. Eis o valor heurístico, o valor da arte de inventar: a representação scienciana surge como ápice de um século que em Recife foi marcado pela procura da própria identidade (Regionalismo e o Movimento Armorial do paraibano Suassuna que se desenvolveu nesta metrópole), um projeto controverso e cheio de perspectivas numa era onde a cibernética popularizou-se.
Com a digitalização e seus efeitos de onipresença e onividência (graças à ubiqüidade do sujeito nas redes telemáticas), ser e estar não são verbos que possam mais se colar semanticamente, (como na língua inglesa). A identidade desenraiza-se, libera-se de suas contenções físicas localizáveis num espaço determinado e aceita possibilidades inéditas de heterogeneização ou mesmo de fragmentação [...] a consciência do sujeito assim como as relações intersubjetivas não podem deixar de ser afetadas [...]Os corpos tornam-se vulneráveis à irradiação viral dos signos, e as identidades podem ser produzidas como um bem de mercado, ou então como qualquer figuração delirante na realidade sintética do ciberespaço (SODRÉ, 1996. p. 178-179).
E a “figuração delirante” na obra de Chico envolve as tradições e a literatura locais misturando-as, como viemos afirmando, com a tecnologia nos anos 90, que atingira as massas de forma avassaladora e a internet que ajudou a estabelecer novos parâmetros na mídia. Os mangueboys puderam contar já com estes recursos que se encaixavam com a proposta da cidade reinventada, agora virtual e pronta para ser despachada para qualquer lugar do mundo onde houvesse acesso à rede. Colaram o que viam com o que ouviram dizer:
Este corpo de lama que tu vê
é apenas a imagem que soul
este corpo de lama que tu vê
é apenas a imagem que é tu
[...] eu caminho como aquele grupo de caranguejos
ouvindo, a música dos trovões
[...] há muitos meninos correndo em mangues distantes
[...] essa rua de longe que tu vê
esse mangue de longe que tu vê
é apenas a imagem que é tu
(CSNZ, 1996)
Nesta letra de Science chamada “Corpo de lama”, além da liberdade gramatical a liberdade de interpretar os signos como se fossem almas ou até ritmos musicais (a imagem que “soul” – “alma” em inglês e um “ritmo” de música). A “música dos trovões”, que os caranguejos escutam é uma referência ao romance de Josué de Castro Homens e Caranguejos, no qual, aproveitando-se que os caranguejos ficavam desnorteados em dia de tempestade com trovões, os homens forjavam barulhos para simular esta situação e capturá-los assim. O “Corpo de lama” também é referência aos pescadores do mangue, metonímia de determinada população miserável da Manguetown que agora parece sem o cheiro na mídia. Com o mangue e seu aparato tecnológico a cibernética se instala na cultura recifense definitivamente: Recife caiu na rede, comunhão entre homem e máquina. A transmissão de um indivíduo de um lugar para o outro deixa de ser uma hipótese.
Tanto a proteína (humana) como o metal (máquina) seriam transcendidos pela realidade de informação, suscetível de transmissão eletrônica [...] a mutação se daria pelo acoplamento do corpo humano a dispositivos maquinais [...] montagem de personalidades combináveis [...] ritmo [...] a identidade viabiliza-se como um jogo de signos realizados por imagens, que circulam aceleradamente, de forma contagiante, à maneira de um processo viral [...] simulacros que se incorporam aos sujeitos, criando outro tipo de relação com o mundo físico. (SODRÉ, 1996, p. 173-174).
O “contágio”, ao qual se refere Sodré, era justamente a proposta do mangue. Do mesmo modo que os habitantes/consumidores da Manguetown se transformaram em caranguejos ao beber cerveja feita com água do mangue, com baba de caranguejo, transformando-se em seres mutantes. A contaminação sígnica:
O indivíduo atribui-se o nome que deseja e pode neste mesmo ato inventar e viver uma identidade alternativa [...] superação da realidade corporal primitiva [...] que no fundo seria pura desordem e falta de razão [...] multifacetado, o sujeito, que se define como suporte permanente de traços acidentais, depara com a sedução imagística e assiste à relativização da permanência pela mobilidade veloz das máscaras, das variadas posições de indivíduos-atos, inerentes à pessoa [...] é tentador buscar na ficção científica inspirações utópicas [...] de mutações psíquicas e corporais” (SODRÉ, 1996. P. 175-177). LEIA MAIS AQUI SOBRE A SEMANA EM HOMENAGEM A CHICO SCIENCE E AS CONTRADIÇÕES HISTÓRICAS DO MOVIMENTO MANGUEBEAT
In a decaying society, art, if it is truthful
numa sociedade decadente, a ARTE, se for verdadeira
Ativista carioca defende comércio justo sem assistencialismo e com produtos que tenham apelo e qualidade
Quem olha o item "experiência profissional" no currículo de Ana Asti imagina alguém muito mais velha do que a jovem carioca de 31 anos. Sua lista de projetos realmente engana.
Formada em Administração e com mestrado em Ciências Sociais, ela representa a América Latina na Organização Mundial do Comércio Justo (WTFO, na sigla em inglês), coordena uma ONG que defende esse tipo de negócio, ajuda a criar leis sobre o tema e também participa de feiras aqui e no exterior. Durante a Rio à Porter - a área de business do Fashion Rio -, ela apresentou os produtos da "primeira distribuidora de moda brasileira de fair trade" e falou ao Estado sobre o comércio justo, "um mercado que infelizmente ainda não pegou no Brasil, mas que cresce uma média de 30% ao ano".
Muita gente acha que o comércio justo é assistencialismo. Como defini-lo?
É uma forma de comércio baseada em princípios como gerar oportunidade para quem precisa, ter transparência na relação comercial, investir em capacitação, além de respeitar o meio ambiente, a igualdade de gêneros e de condenar o trabalho infantil. Também tem-se como princípio estabelecer relações duradouras entre produtor e comprador - o que prova que este mercado não faz caridade. O produto tem que ser bom e bonito para o consumidor gostar, comprar e voltar a procurar o mesmo fornecedor.
Mas a origem do comércio justo não está relacionada a ajudar a população pobre?
Sim, o conceito surgiu nos anos 60, como um movimento de igrejas e ONGs para diminuir a injustiça no mercado internacional, valorizando o trabalho de pequenos agricultores, costureiras e artesãos. Isso se transformou em um nicho de mercado específico que tem como característica a sustentabilidade.
Como foi esta transformação?
Chegou uma hora em que o produtor sabia que era uma proposta política e social, mas que precisava ter um ganho comercial e, para isso, tinha de vender. O que significa ter qualidade, design e, dependendo do produto, certificação ambiental e orgânica. O produto também tem que trazer um benefício para quem compra. Não existe mais a prática de comprar para ajudar os produtores do hemisfério Sul, como antigamente. Mas esse mercado gera oportunidade para quem precisa e é claro que quanto maior o volume de produção do mercado justo, mais produtores são ajudados.
Quantas pessoas são beneficiadas com esse mercado?
Um milhão de famílias de agricultores e artesãos no mundo participa desse movimento.
Qual a diferença entre economia solidária e comércio justo?
No Brasil são conceitos que caminham juntos. Mas no comércio justo existe uma exigência muito grande com o design e a qualidade do produto. É um mercado internacional e tem um volume de produção muito maior, para vender para uma grande rede, por exemplo. Já a economia solidária tem um trabalho forte de capacitação de mão de obra e desenvolvimento da economia local. São produtos artesanais que podem ser encontrados muitas vezes em feiras de rua.
E o que é a Brasil Social Chic?
É a primeira distribuidora de moda sustentável do País. Com o apoio da Onda Solidária (ONG da qual é vice-presidente), quatro grupos de artesãos e costureiras desenvolveram produtos, como bolsas, roupas e artigos de decoração, que miram o comércio exterior. Agora que conseguimos o financiamento do Sebrae, o objetivo é que eles consigam andar sozinhos.
Quais suas atribuições como representante da Organização Mundial do Comércio Justo?
Represento 70 grupos de comércio justo na América Latina. Fazemos parte de uma rede de produtores, compradores e exportadores. Além de acompanhar os integrantes e certificar seus produtos, cuidamos do desenvolvimento comercial e da promoção do comércio justo local e global.
E quem é o consumidor desse comércio justo?
É o mesmo que consome produtos orgânicos, pois a base nos dois casos é a consciência na hora da compra. São pessoas que se preocupam com a natureza e com o homem e sabem que eles vivem juntos.
Como saber se um produtos que compramos vêm de mão de obra explorada?
Bom senso. Se você vê uma bolsa toda trabalhada que é muito barata, vale a pena parar e pensar se o preço dela paga o custo. Tem produtos que vêm da China cujo preço não cobre nem o transporte da mercadoria. E quem banca este preço é a mão de obra que foi explorada. Este questionamento é o consumo consciente, que infelizmente ainda não pegou aqui. Os brasileiros gostam de comprar barato, mas não pensam que isto implica exploração de pessoas.
Existe selo de certificação de comércio justo?
Hoje a WFTO certifica o produtor e vamos lançar um selo para o produto também. Daqui a três anos, a organização decidirá se o selo será usado somente por seus membros ou se vai virar um selo internacional de certificação de comércio justo independente.
Como será o futuro nessa área?
Eu defendo que o comércio justo cresça além da fronteira das ONGs. Sou a favor da entrada de multinacionais nesse tipo de negócio, desde que, claro, seja para a evolução positiva do setor.
Você está participando da criação da Carta de Princípios de Comércio Justo. De que se trata?
É um projeto de lei que regulamenta o comércio justo no Brasil, com os princípios e critérios que definem a certificação que será usada no País. Apresentamos esse projeto após passar cinco anos consultando grupos produtivos de todo o território nacional para entender o que significa o comércio justo na visão dos brasileiros. Porque não se pode simplesmente importar todo o conceito lá de fora. Temos uma realidade e uma cultura de produção própria.
E qual a importância desta lei em âmbito internacional?
O Brasil pode se tornar o primeiro país a ter uma legislação sobre o comércio justo em todo o mundo e se tornará uma referência no assunto.
Em que pé que está o projeto?
A Carta foi assinada pelo ministro do Trabalho, Carlos Lupi, e está na Casa Civil para avaliação técnica. Depois disso, se der tudo certo, ela vai para o presidente Lula assinar e transformá-la em lei por decreto. Assim como há a lei dos produtos orgânicos, teremos a do comércio justo.
fonte: Alice Lobo - O Estadão de S.Paulo Em Janeiro de 2010
Primeiro devo pedir desculpas pela ausência. Ando por aí sem muita cabeça para escrever, e os recursos estão precários. Agora, um pouco mais sobreo e consciente do que aconteceu, volto aqui nesta mesma cadeira para tentar compilar as experiências destes tempos de afastamento. E a viagem foi longa e agitada. Computados mais ou menos dois mil quilômetros, passando da região sudeste ao centro-oeste do Brasil, depois de me ver arrancado à força da cidade maravilhosa, acabei curtindo a viagem e, como sempre, procurei pelas informações mais interessantes e suas possibilidades. No princípio, não entendi onde estava e nem como faria as coisas acontecerem, tanto foi a desorientação que não consegui sacar a câmera da mochila e fazer alguns cliques da nova residência. Nem ao menos dei-me conta da diversidade que a "pequena" cidade de Dourados apresentava. As pessoas apresentavam-se de forma heterogenia, o comércio diversificado e a surpresa de encontrar um complexo de lojas num shopping central na cidade, que não deixa-a distante de qualquer outra cidade voltada para o consumo em qualquer lugar do planeta. E todas as mazelas que a acompanham vieram juntas com a enxurrada que caia do céu e deixava barrenta as ruas que dão acesso ao centro desta cidade. No colocar-me em outro campo cultural e deslocar-me entre contextos contrastantes, fez-me olhar para o próprio lugar de onde vim e onde, a partir de hoje viverei. Levado a estabelecer paralelos e compreender as divergências das vivências em diferentes rotinas e situações, a latitude contrastante no roteiro Cidade Maravilhosa-Interior-Megalópole engendrou em mim o clímax do entendimento. Sem dúvidas, deslocar-se é algo prazeroso, libertador e criativo. A importância e o choque de culturas foi crucial para entender este momento e "cair a ficha". O entendimento só foi assimilado após visita à FAAP, já no meio da viagem de volta ao Rio, parei em sampa para visitar e rever pessoas especiais. Foi uma experiência importante porque o contato com a arte e ajuda de um guia maravilhoso e solícito, surgiu o supervisor monitor de classes Marcio, a quem agradeço pelo tour na faculdade de artes plásticas em São Paulo, que foi a chave para entender o propósito da viagem. Logo de cara, tropecei no que há de mais rico de um movimento que cativa-me e ao mesmo tempo me perturba a mente - mostra de expressionismo - entrega aos olhos da alma uma riqueza de sentidos traduzidos em traços simples e técnicas chapantes. Algo que fez de imediato pensar sobre meus próprios trabalhos, além de lançar um olhar crítico nas filosofias e movimentos a que venho investigando. O suporte é simples e acessível a quaisquer mortais, entre naquins e gauches, xilogravuras, litos e pinceladas fortes, fui imediatamente arrebatado para dentro das angústias e incertezas que aquelas imagens passavam, e assim pude instantaneamente compreender, intuitivamente, o significado de que só é possível ser verdadeiro dando um passo à frente, mesmo que a direção seja desconhecida. Sabendo da importância de estar em movimento mas não vivendo a radical experiência, não se pode ser real, e aí reside o verdadeiro significado do ser e estar vivo. Por mais livros e informações que recebemos na confusão de nossa rotina, somente a real experiência e a radicalidade dos eventos sucessivos é capaz de traduzir, em nossos desejos, a vontade inexorável de expressar e comunicar nossa realidade de forma expressionista. Porque é disso que se trata a vida, é por isso que estamos aqui consumindo, não apenas produtos e sim sensações, sentidos, aspirações, posicionamentos sociais, estes se concretizaram de forma dramática em mim a partir da clara síntese de Gilles Lipovetsky, que foi outro achado na terra da garoa. Enquanto a chuva caía - O Império do Efêmero - foi o abrigo mais seguro e promissor, caminho para seguir a viagem nesta compreensão. Como andarilho, me vi incitado a vencer os limites estabelecidos pela minha própria cidade, e ao mesmo tempo motivado a criar as oportunidades, lançando mão de recursos até então não explorados. A escassez em meus trabalhos poderia ser em si mesma a motivação para representa-los. Prometo reunir aqui algumas ilustrações e fotos que fizeram parte desta viagem em breve. Então retorne neste post para conferir as atualizações.
legenda artes fig.1 Marco Paulo Rolla. A coqueteleira, 1991, acrílico em tela. fig.2 Marina Cram.ST,_1967. Nanquim e guache papel fig.3 Marina Caram, Menina pobre, menina rica,1954, nanquim no papel fig.4 Emile Tuchband. Cristo, st, óleo sobre tela fig.5 Marco Paulo Rolla. Lavajato, 1991, acrílica em tela
O Museu de Arte Brasileira da FAAP apresenta
A partir de 15 de fevereiro, a exposição Marcas do Expressionismo, que reúne cerca de 90 obras de seu acervo, entre pinturas, gravuras e desenhos. O visitante terá a oportunidade de apreciar obras de artistas brasileiros e estrangeiros radicados no Brasil, representantes das artes visuais nacionais do século XX e da primeira década do século XXI. Obras de Anita Malfatti, Flávio de Carvalho e Oswaldo Goeldi, notáveis artistas do movimento modernista brasileiro, são as grandes atrações da mostra pela quantidade de obras que os representa, pela qualidade artística das mesmas e, fundamentalmente, por serem os mais significativos expoentes do Expressionismo nas artes visuais brasileiras. As fortes e fragmentadas linhas encontradas nos desenhos de Anita e Flávio e nas gravuras de Goeldi são exemplos dessa manifestação, assim como a ousada e impetuosa paleta de cores utilizada por estes dois primeiros artistas. Participam da exposição, também, desenhos de Marina Caran e Heinz Kühn, fortes nas formas e conteúdos; pinturas de Juarez Magno, Pierre Chalita, Émile Tuchband e Otoni Gali Rosa, produzidas nas últimas décadas do século XX, e obras de artistas mais contemporâneos como Herman Tacasey e Marco Paulo Rolla. Segundo o curador da mostra, José Luis Hernández Alfonso, o objetivo da exposição é constatar que o cerne dessa tendência artística se manteve atuante quanto aos seus fundamentos conceituais e seus aspectos formais, apesar do tempo transcorrido desde seu surgimento e graças à solidez atemporal dos valores artísticos, gerados na busca por revelar os caminhos que levam ao mundo interior do ser humano e sua existência: análogos e universais sempre.
Expressionismo
O começo do século XX, na Europa, singularizou-se por um dinâmico movimento cultural nas diferentes esferas do conhecimento humano. Mudanças formais e conceituais deram origem a tendências artísticas de vanguarda que compartilhavam novas visões e interpretações da arte e cujos representantes se autoproclamavam condutores de uma cultura que estava à frente de seu tempo. Surgidas no caminho de um espaço histórico cercado pelos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial e se prolongaram até o término da Segunda Guerra Mundial, as denominadas “vanguardas históricas” foram todas elas influenciadas – em conjunto ou indistintamente – tanto pelos reais problemas sociais daqueles acontecimentos bélicos – devastação, miséria e mortes –, como por suas consequências psicológicas – angústias e pessimismos em escala individual e coletiva. No comportamento das vanguardas intervieram também, significativamente, os progressos científico-tecnológicos e sociais e suas decorrências na vida pessoal e social dos indivíduos motivados, entre outras coisas, pelos avanços da industrialização e dos meios de transporte, os novos tipos de emprego e costumes na vida das pessoas, o mercantilismo e a cultura de massas. Em sentido geral, no imaginário estético dos protagonistas das vanguardas, a arte deveria ter uma afinidade integral com a vida, a sociedade e a realidade do ser humano, a fim de transformá-lo em um espectador ativo e mobilizado, capaz de apreender e interpretar a obra de arte.
Entre essas manifestações artísticas, o Expressionismo, surgido na Alemanha, reuniu artistas de diferentes níveis intelectuais e produções marcadas pela diversidade formal. O movimento defendia uma arte voltada para a interiorização da criação artística, ou seja, mais pessoal e intimista, em que predominava a visão do artista, sua reflexão individual e subjetiva. Do ponto de vista formal, o Expressionismo passou a ser entendido como um modo de deformar e alterar a realidade para expressar a natureza e o ser humano de uma maneira mais subjetiva, dando primazia à revelação dos sentimentos, mais do que à descrição objetiva da realidade. Assim concebido, o Expressionismo invadiu todo o universo artístico das vanguardas, desde o Fauvismo, o Futurismo e o Cubismo até o Dadaísmo e o Surrealismo. Interpretado nesse sentido, e seguindo os passos das artes visuais até os dias de hoje, pode-se convir que a essência do Expressionismo passou além de seu tempo, ao vê-lo extrapolar qualquer época e território.
SERVIÇO
Data: de 15 de fevereiro a 29 de maio de 2011 Local: Museu de Arte Brasileira da FAAP Endereço: Rua Alagoas, 903 Higienópolis Informações: (11) 3662-7198 E-mail: museu.secretaria@faap.br Horários: de terça a sexta, das 10h às 20h. Sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h. (Fechado às segundas-feiras, inclusive quando feriado) ENTRADA FRANCA
Ain´t over until it´s over - a viagem ainda não acabou
Em sentido geral, no imaginário estético dos protagonistas das vanguardas, a arte deveria ter uma afinidade integral com a vida, a sociedade e a realidade do ser humano, a fim de transformá-lo em um espectador ativo e mobilizado, capaz de apreender e interpretar a obra de arte.
Pensa escreve desenha cria imagina planeja inspira observa transforma emociona convence comunica mensura anuncia e ainda por cima de um jeito conceitualmente original.
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Arte e Fotografia Limitações superadas e transcendidas por meio da arte
by Caboco Satélite Uma canja com um pouco de tudo. Um potpourri louco pra sacudir o esqueleto e espantar qualquer uruca | pesquisa: Richard Verdoorn | imagem: santo Agostinho e o diabo com o livro dos vícios, por Micheal Pacher (1475)