Nossa faz tempo que não escrevo sobre fotografia e a final de contas esse é um blog de um fotógrafo.
Acontece que muita coisa tem mudando nestes últimos semestres e a sobrevivência de um profissional de fotografia numa cidade grande, como muita concorrência e poucas ofertas de oportunidades para bons trabalhos, acabam ficando restritas aos grandes nomes de mercado. Eu não estou nem perto disso apesar de ter trabalhado para os grandes durante cinco anos de minha carreira, porém no universo publicitário a coisa é ainda mais restrita. Não basta ter nome no mercado, é preciso estar sempre atualizado com técnicas novas, equipamentos novos e investir pesado em marketing e infra estrutura moderna. O mundinho publicitário vive de muito glamour e de aparências, mas no dia a dia mesmo o bicho pega e muitas vezes agentes prestadores de serviços e até mesmo grandes agencias passam meses sem uma boa conta de cliente para trabalhar. Essa é a verdade do mercado carioca, o resto é ficção científica.
Bom, meu objetivo neste post é retomar o contato com temas ligados a fotografia e a arte. Essa introdução foi mais um desabafo para compartilhar com vocês a minha angústia em períodos de recessão.
Gostaria de compartilhar um gráfico interessante que encontrei sobre os princípios fundamentais da fotografia. Apesar de ser um tema bastante discutido nos cursos e bem básico para quem já trabalha profissionalmente com foto, ou faz renda extra com fotografia, penso que vale a pena sempre ter na mão uma referencia até mesmo para poder dialogar com os clientes.
Gráfico de Rudimentos Fotográficos
Só pra lembrar que a fotografia é técnica - pois há uma ciência por trás do "simples" apertar de botão - mas também é arte pois o ser humano que aperta o botão é quem decide quando, como e para que direção e finalidade irá disparar e registrar aquele momento único, fazendo a mágica acontecer.
O tripé básico da fotografia ilustrado no gráfico é o ISO, o OBTURADOR e a ABERTURA.
A Exposição indicada são parte de correções ou finalidades autorais, mais artísticas onde sabendo-se onde está a medição ponderada (correta, equilibrada) o fotógrafo pode adicionar seu tom artístico a imagem.
Imaginemos uma linha vertical cortando este gráfico de cima a baixo.
Supondo que essa linha seja a medição ponderada (key light) de uma certa cena ou objeto a ser fotografado. Por exemplo, com ISO 400 temos uma velocidade de 1/2 seg., com DIAFRAGMA f.4 sem compensação de exposição. Isso é ciência: um conjunto de mecanismos que capturam a imagem.
A parte sensível ou criativa do funcionamento é, como disse anteriormente, diretamente relacionada como a habilidade, experiência e capacidade técnica do olhar de nosso amigo fotógrafo.
Sabendo-se disso, esse profissional tenderá mais para a esquerda do gráfico ou para a direita conforme seu objetivo, sabendo pré-visualizar mentalmente antes mesmo da imagem ser formada no visor qual será o resultado daquela exposição fotográfica. E aí está o grande efeito mágico que a fotografia exerce sobre o ser humano: a capacidade de capturar momentos únicos da vida e transforma-lo em uma obra de arte imagética, que poderá alimentar muitos sonhos, projetar num espaço tempo futuro aquilo que um dia - por frações de segundo - foi a impressão única de um momento singular.
Para ilustrar esse poder de captura do equipamento fotográfico, separei algumas galerias fotográficas que vi recentemente por aí. Elas ilustram perfeitamente esse senso de fotografia e arte que há no registro do fazer fotográfico.
Eu jurava para mim mesmo que não iria mais fazer postagens como esta. Porém, a força sintética da ideia obriga-me a escrever mais um esculacho.
A fraseologia é o ornamento da mente*. A degradação da vida prática pelo ornamento.
Na proliferação das manifestações virtuais e assédio midiático dos dias atuais, somos impelidos a frases de efeito e auto retratos para justificarmos aquilo que já não possuímos, ou que não é autêntico de nossa criação. Deveríamos parar de viver nesse cenário antes de que alguém perceba que é falso. Por isso mesmo este que vos escreve, tem reduzido quase que por completo as tentativas de continuar a publicar coisas do tipo. É preciso ânimo e coragem para trazer ao público coisas que realmente sejam suas. E tempo para digeri-las, conforme sentimos o desejo de até compartilha-las. Senão, viveremos num eterno faz de contas. Que segue entorpecendo o real sentido das coisas. Talvez o mundo imaginado esteja tomando o lugar do mundo real das contradições, das limitações e da busca pelo o que realmente vale a pena. O necessário dando lugar ao supérfluo. O concreto dando lugar ao subobjeto. O ideal cedendo lugar ao fantasiado. *Waal, Edmund de. A lebre com olhos de ambar: Die Potemkinische stadt. Ed. Intrínseca, 2011. Sobre Viena no final do século 19.
Feijoada no alto do morro, que beleza! Futebol, samba e feijoada com vista panorâmica. Venha, divirta-se e colabore com a cultura ; )
Acesse o blog do documentário e participe deste evento cultural em favor da causa de meu primeiro documentário, do nosso documentário afinal somos todos UMA CULTURA BRASILEIRA.
Toda ação parte do pensar. O mundo dominante ocidental divide o pensamento em campos de conhecimento, áreas filosóficas, econômicas, informacionais, arquivísticas, etc... Atualmente há uma deficiência na base do sistema dominante. Urge uma discussão sobre o propósito dessas áreas e como elas são trabalhadas no campo científico e assim propor mudanças de paradigma.
O homem ocidental se forja na Grécia, pátria mãe da criação de conceitos. O paradigma grego do pensamento racional se perpetua no homem moderno. Continuamos seguindo a lógica dos pensadores universais. Legitimando essa visão superior.
O pensamento racional é o fogo subtraído dos deuses por Prometeu, cujo nome significa “aquele que pensa antes”. Através dessa chama divina o homem ocidental começa a classificar, dividir o mundo em esferas de superior/inferior, civilidade/barbárie, para então apreender o poder, reconhecer a sua autoridade.
Essa racionalidade se estabelece como verdade absoluta, única visão do mundo, sabedoria superior a ser seguida, detentora de um amplo imaginário que dá significado às formas, apropriando-se delas e estabelecendo controle e poder. Um exemplo disso é visto no filme “Matrix”, onde a Matriz é uma forma de controle do mundo, olho que tudo vê. A construção desse mundo depende de quem detém o saber. Mais adiante, ao analisarmos o documentário “Zeitgest” veremos quem são esses agentes que fragmentam o mundo. Por domínio, o homem ocidental cria mecanismos para centralizar a produção do conhecimento e assim determinar a separação entre civilizados e bárbaros.
O controle da Informação / O grande arquivo do pensamento / Dividir para dominar
Dentro desse raciocínio, “conhecer é saber, é poder”, o arquivo se insere como a materialização dos projetos de dominação. Conhecer para ter o poder. Ter o poder para dominar. O arquivo é o registro dessa instituição que detém o conhecimento, refletindo-se na figura do Estado. A arquivologia por conseguinte é o saber do Estado. Todo esse corpo de conhecimento se fundamentou nas bases clássicas do pensamento moderno. Esse pensamento, como vimos,
se apóia em uma visão etnocêntrica. Ou seja, a exclusão de tudo o que não está inserido dentro do grupo racional e superior.
Tudo o que é desconhecido, fora de uma classificação é o estranho, o diferente, o “monstruoso”. Ironicamente, é o próprio saber que constrói o conceito de “mostruosidade”, senão a retórica dualista não teria sentido. Um exemplo disso é visto no filme “Vênus Negra”, história verídica da africana Sarah Baartman, que no século XIX era exibida em feiras européias como um ser degenerado devido às suas peculiaridades físicas, e foi catalogada pelo pensamento ocidental em bancas de cientistas e naturalistas, dissecada física e moralmente como “monstro”.
A ciência, uma das divisões do campo de conhecimento, é usada como auxiliar do pensamento superior ocidental. Esse sistema classificatório de espécies chamado taxonomia corrobora todo esse discurso colonialista e etnocêntrico. Segundo Valdei Araújo no texto “O Arquivo e o Monstro”, o monstro existe para ocupar o espaço do que é errado, defeituoso, degenerado. Vemos claramente essa idéia no filme “Drácula”de Bram Stocker, onde o personagem principal personifica o desconhecido, a aberração. O temor do outro que não conhecemos, da
cultura desconhecida relegada ao plano da aberração.
Surge então o conceito de “Arquivos Utópicos”, descrições idealistas para impressões de domínio e compreensibilidade do real. Nesse contexto, o papel do arquivista é com o levantamento e organização de dados, levando em consideração aspectos como: contexto e construção, verdade e mentira, história oral, documentos sensíveis, sigilosos, confrontamento de fontes, fatos e subjetividade, memória e imaginário e outros tipos de documentação. O homem encontra assim seus mecanismos de dominação. O filme “Lawrence da Arábia” ilustra bem essa idéia. Nele, o jovem tenente do Império Britânico é designado em uma missão de reconhecimento e catalogação de tribos árabes. Lembrando que um espaço dominado é um espaço catalogado dentro do pensamento etnocêntrico. Lawrence irá registrar aspectos culturais, geográficos e políticos de um grupo desconhecido para ampliação do Império Britânico. Inútil dizer que essa classificação nada tem de inocente, pois o Império é o rolo compressor de culturas alheias ao seu sistema. Seu verdadeiro intuito é subjugar um grupo em benefício próprio. Porém, Lawrence subverte o próprio sistema ao se inserir na cultura regional dos beduínos. “Sou alguém fora do comum. Vim de um país gordo, de gente gorda”. “Você não é gordo, responde o beduíno. “Não. Eu sou diferente”.
Assim a história começa a ser vista pelo outro lado.
Mas quem é o real?
Poderia ser tudo o que é transmitido através da escrita ou conto?
Quem é o contador da história?
Ele descreve o que ele vê ou o que pensa que vê?
No texto “A Filosofia e os Fatos”, de Portelli, essas narrativas constituem matéria não exclusivamente literária, mas também histórica. “A construção da narrativa em si, quer seja justa ou equivocada pode enganar-se no momento da interpretação”. Surge a indagação, essa história contada é representativa? De quem?
A própria descrição já contém um fator subjetivo, pois depende do olho de quem vê. Essa representatividade não significa normalidade. E o outro lado? Quem não está dentro dessa história é o anormal?
Entramos no campo das possibilidades, da subjetividade das experiências imaginadas. Portelli nos lembra que a sociedade não é uma rede geometricamente uniforme como a abstração das ciências sociais nos representa.
Outrossim, podemos questionar quem constituiu essa rede de informação, quem se imbuiu da autoridade de dividir, fracionar, ditar regras, normas, tudo em benefício de um sistema que hoje vemos defasado. Quem não permite que possamos ver do outro lado?
Segundo Pedro Demo, em seu texto “A Ambivalência na Sociedade de Informação”, a potencialidade informativa dos novos meios de comunicação ainda está presa a acessos elitistas. Ou seja, em certo sentido, todo processo informativo é manipulador, porque seleciona a informação disponível. Exemplificando essa manipulação, voltamos ao filme “Matrix” e a cena da pílula oferecida ao personagem Neo. A pílula é o elemento catalisador, a desconstrução da realidade manipulada, a ampliação da visão, a possibilidade de enxergar a realidade de outro modo. Nesse ponto, o papel do educador é fundamental. O bom preceptor é quem dá a pílula para que seu pupilo veja além dele. Segundo o filósofo humanista Krisnahmurti, o verdadeiro propósito da educação é ajudar a descobrir o que nós queremos, para que possamos nos entregar de mente, corpo e coração naquilo que amamos fazer. Ao ser puxado para o caminho da tradição, do medo, da hereditariedade familiar, das exigências da sociedade, o homem se aniquila e impede o fluxo verdadeiro, por medo de não conseguir sobreviver no mundo, pela enxurrada de informações que nos chegam diariamente, com um único propósito de nos classificar em um pensamento estabelecido como o padrão. Krisnahmurti ensina e reverte a visão ocidental e não se detém em um mundo dividido em “ismos”, em ocidente e oriente, mas afirma que não amar o que se faz gera conflito e a doença social moderna.
O homem e sua grande invenção – a máquina [sistema] perfeita que irá destruí-lo.
A doença social se resume no excesso. A sociedade produz resíduos e suga reservas econômicas, quando que sua eficiência deveria ser a ausência de resíduos. Por isso, a nossa sociedade é extremamente ineficiente. Considere os resíduos como produtos do crescimento que nós produzimos, numa produção de bens e aumento deliberado do consumo como propósito de vida. Vivemos dentro de um pensamento capitalista ordenado por grandes corporações, uma minoria dominante que gere, regula, classifica, e controla nas esferas econômicas, políticas e sociais.
No documentário Zeitgeist são debatidos temas do comportamento humano, o sistema corrosivo financeiro mundial, como ocorre o colapso social e o que poderíamos fazer para evitar o inevitável. Sair dessa classificação dominante seria inverter o jogo, olhar as coisas sob novas perspectivas. Em uma sociedade basicamente errada não pode haver meio de vida correto. Uma sociedade que esmaga o diferente relegando-o em um limbo social, econômico e cultural só tem a saída para a desintegração. Vivemos, pois, encarcerados em um sistema capitalista que depende do crescimento. Para sair desse colapso, deveríamos buscar um objetivo que seria a sobrevivência sustentável do homem através de um método próximo da proposta científica atual com um diferencial: toda política seria redundante, pois eliminaríamos opiniões e interesses da minoria dominante, e os campos de conhecimento, a ciência seria usada para gerir recursos globalmente, coordenar a produção de forma eficiente, num sistema de verdadeira distribuição global, oferecendo tudo para todos onde for necessário, sem interferência dos controladores dos Estados e nações. Ou seja, a corporatocracia que regula o sistema cuja finalidade é lucro, domínio e poder econômicos. A eficiência seria uma economia baseada em recursos para toda a humanidade. Portanto, urge repensar a Educação e dissolver programas de comportamento sociais limitadores de mudanças ou quaisquer revoluções nos paradigmas do mundo atual. Não podemos mais nos ancorar em sistemas tradicionais, no único pensar dito superior. Isso significa exclusão e desintegração. Devemos aliar ao conhecimento novas informações que colaborem e integrem o homem. No documentário “Entrevista com Milton Santos”, vemos que há uma parcela de pensadores, homens que formam o corpo social e crítico de um país como o Brasil, que não se deixam subjugar pela autoridade etnocêntrica e selvagem atual. Milton nos diz que não há produções excessivas de informações, mas de ruídos, os fatos estão à mostra e as notícias são interpretações desses fatos. Afinal, as agências de informação são controladas por grupos financeiros, e os acontecimentos são analisados de acordo com interesses pré-determinados. Ele ressalta que reclamamos contra os autoritarismos, os inevitáveis “ismos” e caímos noutro globalizante, onde se exige um comportamento padrão, mesmo modelo, mesma bula, uma variedade de caminhos que são apenas limitadores da verdadeira liberdade e cidadania.
“Porque no Brasil jamais teve cidadãos, nós a classe média não queremos direito, queremos privilégios, e os pobres não têm direito. Não há, pois, cidadania nesse país, nunca houve”.
Milton Santos
A sociedade produz resíduos e suga reservas econômicas. Nosso principal objetivo deveria ser a sobrevivência sustentável em um sistema de distribuição global sem interferência dos controladores do Estado e nações, a Corporatocracia, que regula um sistema cuja finalidade é o lucro, o domínio e o poder econômico. Segundo Pedro Demo em seu texto “Ambivalência na Sociedade da Informação” - a potencialidade informativa dos novos meios de comunicação ainda está presa a acessos elitistas, e quando traduzida em telecomunicação tende fortemente o instrucionismo. Ou seja, em certo sentido, todo processo informativo é manipulador, porque seleciona a informação disponível. A dificuldade de olhar as coisas sob novas perspectivas, invertendo um pouquinho desse jogo, poderia evitar o colapso do sistema atual. Em uma sociedade basicamente errada não pode haver meio de vida correto. A atual sociedade é fundada na inveja, no ódio e no desejo de poder. Isso gera conflito e desintegração. E cria mecanismos para perpetuação desse poder e achatamento de grupos e esferas que não compartilham desse propósito. No documentário Zeitgeist são discutidos temas do comportamento humano, o sistema corrosivo financeiro mundial, como acontece o colapso social e o que poderíamos fazer para evitar o inevitável.
Quando o principal objetivo é a sobrevivência sustentável do homem, com um método próximo do que seria a proposta científico de hoje, com um diferencial: daqui por diante, toda política é redundante, pois não se trata de opiniões e interesses da minoria dominante, mas sobre ciência e como gerir recursos globalmente, coordenar a produção para a demanda de forma eficiente, num sistema de distribuição global, oferecendo tudo para todos onde for necessário, sem interferência dos controladores dos estados e nações, a saber, a corporatocracia, que regula o sistema cuja finalidade é lucro, domínio e poder econômicos, passando-se então para a Economia Baseada em Recursos a toda humanidade.
Deve-se também, para entender esse sistema que assegura o consumo apenas do necessário e o quanto se pode crescer e, tendo essa exata noção, deve-se repensar a Educação e dissolver Programas de Comportamentos Sociais limitadores de mudanças ou quaisquer revoluções nos paradigmas deste mundo atual.
Na essência do Zeitgeist, temas como comportamento humano – falhas na educação fundamental, fase infância; Crime, violência e medo - A taxiologia – tratado das classificações – medo e violência são partes importantes de um produto de uma sociedade doente, onde quanto maior a igualdade numa sociedade, ou quanto menor a distância entre pobres e ricos, menos criminalidade e melhor nível de educação; Dinheiro igual a dívida, todo dinheiro que existe no mundo é emprestado de uma dívida bancária e assim por diante, fator que torna esse sistema ainda mais crítico são os juros pagos sobre o reembolso do dinheiro emprestado, onde mais dinheiro deve ser criado, perpetuando essa dívida impagável, em efeito bola-de-neve auto-corrosivo.
A eficiência deveria ser a ausência de resíduos. Daqui resulta que a nossa sociedade é extremamente ineficiente. Considere os resíduos e o produto do crescimento que nós produzimos. Considere a produção de bens e o aumento deliberado do consumo como propósito da vida, que é viver para o consumo no sistema capitalista, onde a economia depende do crescimento. Se o crescimento é estagnado, o sistema entra em colapso. Esta paralisação, por sua vez, tem a ver com o sistema monetário, que se alimenta do débito a partir da falência, ou quebra do sistema de países inteiros como no caso recente da Grécia, na dependência na figura do FMI – leia-se: famílias que controlam as indústrias e empresas que controlam a economia global - cujo objetivo final é o crescimento de suas reservas econômicas, sustentar a existência de uma espécie endêmica, visto que a economia é a força motriz deste crescimento, portanto, quanto mais pessoas doentes, produz-se mais drogas, cria-se toxicodependência, subsistência e sub-empregos, mais subserviência e controle, e assim por diante...
Uma grande mentira bem contada e, voilà, uma grande verdade incontestável.
No depoimento de Milton, vemos que produzimos muito mais comida do que se pode comer, descobriu-se que a comunidade européia premia quem deixa de produzir comida, e castiga quem produz mais do que a cota estabelecida – por quem?
A questão da fome não é sobre produção mas sim de distribuição, a exemplo de epidemias de fome na África onde os E.U.A recusou ajuda caso condições políticas não fossem atendidas. A fome deixa de ser o centro da questão da humanidade e sua organização em uma sociedade mal-intencionada será o foco.
Caso continuemos entorpecidos pela realidade que nos cerca, o receituário do Banco Mundial seja seguido, teremos que aprender a conviver com a morte pela sede em breve, onde os recursos hídricos também serão monopolizados, sobre premissa de que não haverá água para todos, quando na verdade, há as Transnacionais da Água, sob a lógica de suas ações na bolsa financeira, muralhas do capitalismo fragmentando o espaço por controle, poder e lucro. Quando deveríamos reiniciar o debate sobre nossa civilização, abandonado em função do crescimento econômico, juros, inflação e outras abstrações, onde civilização não é objeto de discussão, abrindo precedentes para barbáries como essa, na qual se mata povos e nações indiscriminadamente.
A mídia e sua fábula de globalização, onde o homem deixou de ser o centro do mundo em função do dinheiro em estado puro, fruto de uma geopolítica proposta pelos economistas, impostas pela mídia, controlada pela corporatocracia, onde 6 empresas controlam 90% do mercado da mídia mundial. Ancorada no livre-mercado com trilha para o paraíso, sua antropologia moderna criou seu Homo-Davos, pregando o fim da história através de fundos para anestesiar a pobreza, quando deveria intermediar as reais necessidades da humanidade, e não maçantes repetições de informações compradas notoriamente percebidas. Uma nova ordem mundial estabelecida em competitividade sem limites morais. Não há produção excessivas de informações mas de ruídos, existem os fatos, e as notícias são interpretações destes fatos, com as grandes agencias são controladas por grandes grupos financeiros, os acontecimentos são analisados de acordo com interesses pré-determinados. A informação como instrumentos de processos globalitaristas, produzindo formas totalitárias de vida.
As formas tradicionais de democracia atuais não convencem os mais pobres. Procuram uma alternativa numa globalização solidária, por meio de ONGs e organizações do terceiro setor. Mas o Estado no seu exercício através da política, torna-se indispensável se socializadores, pois as forças de desigualdades são muito mais fortes que no passado, onde não se discute o papel da democracia, seqüestrada e condicionada, cabendo apenas o poder ao cidadão na esfera política, substituir um governo que não gosta e colocar outro que talvez venha a gostar, participando do que seria real democracia, apenas os representantes das minorias dominantes, definidas anteriormente. A palavra perde seu conceito original e tornam-se vazias pois o tempo mudou, e sua coerências não reflete-se principalmente na atuação política. Reclamamos contra os autoritarismos, fascismo, nazismo e caímos noutro globalizante, onde se exige um comportamento standard, mesmo modelo, mesma bula, uma variedade de caminhos limitadores que pressupõe liberdade e cidadania, apenas na retórica da globalização.
Coisas realmente simples, como a técnica como plataforma para a liberdade – segundo depoimento dos Crenaques da Serra do Cipó, ainda no filme com Milton – ser universal aqui mesmo olhando para evolução de nossa própria existência, vai permitir - sem abandonar - o que a gente é, um povo indígena, somos perfeitamente universais, a exemplo do índio jornalista e produtor gráfico, Ailton Crenaque, que usa a Rede Povos na Floresta como tecnologia da comunicação para integrar o povo indígena e seringueiro.
Este fenômeno pode se multiplicar, por enquanto há uma coerção contra estas formas, limitadas em termos renovadores por escassez de recursos e falta de incentivo dos legisladores, porém pela demanda que vem de baixo, de forma explosiva, teremos alguma coisa nova acontecendo através daqueles com ‘curiosidade aguçadas’, numa grande utopia para o século vinte e um.
Tudo isso precisa ser mudado para que haja uma sociedade correta, equânime. Tendemos a achar que isso é tarefa impossível. Não é, somos eu e você que temos que cumpri-la. Hoje, qualquer meio de vida que escolhemos cria infelicidade ou contribui para a destruição da humanidade. A mudança ocorrerá quando não estivermos na busca pelo poder, quando eliminarmos inveja, ódio e antagonismo. Quando em nossos relacionamentos causarmos alguma transformação. Assim estaremos de forma genuína a criar uma nova sociedade, formada por pessoas livres da tradição, das correntes do autoritarismo. Somente o homem que busca a realidade pode criar uma nova sociedade. O fogo sagrado subtraído por Prometeu não deve ser exclusivo de uma minoria.
O fogo só tem razão quando alimenta e aquece na escuridão.
Dessa forma, concluímos através de um pensamento de Krisnahmurti, pois apenas descobriremos a resposta quando rompermos com o medo:
“Veremos o quão importante é trazer para a mente humana a revolução radical.
Essa crise é uma crise na consciência. Uma crise que não pode mais aceitar as velhas normas, os velhos padrões, e as antigas tradições.
E, considerando o que o mundo é hoje, com toda a miséria, conflito, brutalidade destrutiva, agressão e assim por diante...
O homem ainda é o mesmo de antes. Ainda é bruto, violento, agressivo, acumulador, competitivo.
E construiu a sociedade nestes termos”.
“O que estamos tentando, como toda essa discussão e retórica, é ver se não podemos fazer acontecer uma radical transformação da mente.
Não aceitar as coisas como elas são, entende-las, mergulhar nelas, examiná-las. Usar o seu coração, a sua mente e tudo o que você tem pra descobrir
um jeito de viver diferente. Mas isso depende de você e de mais ninguém. Porque nisso não há professor, nem aluno, não há um líder, não há guru,
não há mestre, nem há salvador... Você mesmo é o professor, o aluno, o mestre, o guru, o líder, você é tudo e... Entender é transformar o que há”.
Krishnamurti
Reposição de mentes atrofiadas através da semeadura de espécies mentais novinhas em folha.
Em uma sociedade basicamente errada, não pode haver meio de vida correto. Nosso meio de vida, qualquer que seja, leva à guerra, à miséria geral e à destruição, e isso é perfeitamente óbvio. Nossa ocupação, seja qual for, contribui inevitavelmente para que haja conflito, decadência, implacabilidade e sofrimento.
Então, a atual sociedade é basicamente errada, fundada na inveja, no ódio e no desejo de poder, de modo que cria meios de vida errados, como as profissões de soldado, policial, advogado. Por sua própria natureza, essas profissões são um fator de desintegração da sociedade, e quanto mais soldados, policiais e advogados, mais evidente se torna a decadência da sociedade. No mundo todo há cada vez mais homens de negócios que os acompanham.
Tudo isso precisa ser mudado para que seja fundada uma sociedade correta, e achamos que essa é uma tarefa impossível. Não é, e somos você é eu que temos que cumpri-la. Hoje, qualquer meio de vida que escolhamos cria infelicidade para um outro ou contribui para a destruição da humanidade, como vemos diariamente. Só haverá mudança quando você e eu não estivermos buscando poder, quando não formos invejosos, cheios de ódio e antagonismo. Quando, em nossos relacionamentos, causamos alguma transformação, estamos ajudando a criar uma nova sociedade formada por pessoas que não estão pressas à tradição, que não pedem nada para si mesmas, que não estão em busca de poder, porque são ricas por dentro, encontraram a realidade. Só o homem que busca a realidade pode criar uma nova sociedade, só o homem que ama pode transformar o mundo.
No campo educacional e filosófico, educação, trabalho e dinheiro – o que é educação e como decidir com o quê trabalhar – parte III de Krishnamurti – o verdadeiro propósito da educação é ajudá-lo a descobrir o que quer, para que você, quando for adulto, possa se entregar de mente, coração e corpo aquilo que realmente ama fazer. Descobrir o que realmente gosta de fazer exige bastante inteligência, porque, se tiver medo de não ser capaz de ganhar a vida, ou de não se encaixar nessa sociedade podre, nunca descobrirá. Mas, se não tiver medo, se recusar-se a serem puxados para o caminho da tradição por seus pais, professores, pelas exigências superficiais da sociedade, você poderá descobrir o que realmente ama fazer. Portanto, para descobrir, você não pode ter medo de não conseguir sobreviver.
Mas muito de nó ainda tem esse medo. O que será de mim se eu não fizer o que meus pais querem? Se não me encaixar na sociedade, perguntam-se. Com medo, fazemos o que nos mandam fazer, e nisso não há amor, há apenas contradição, e esta contradição intima é um dos fatores que criam ambição destrutiva.
Autoconhecimento – medo e raiva e violência - Parte dois de Krishnamurti – ensina e reverte a visão ocidental e não se detém em conceitos de um mundo dividido “ismos” de todo tipo. Desse modo, a função básica da educação é ajudá-lo a descobrir o que realmente ama fazer, para que você entregue a mente e o coração aquilo. Porque isso cria dignidade humana, varre para longe a mediocridade, a mesquinha mentalidade burguesa. Por essa razão é tão importante ter os professores certos... Descobrirão a resposta quando amarem o que estão fazendo. Se você é engenheiro porque precisa ganhar a vida, ou porque seu pai ou a sociedade esperam isso de você, esse é outra forma de compulsão, e compulsão, sob qualquer forma, cria contradição, conflito.
Mas se você realmente ama ser engenheiro, ama arquivologia ou até mesmo a ciência, ama plantar uma árvore, pintar um quadro, ou escrever uma poesia, não por status e para ser admirado, mas apenas porque ama o que faz, então descobrirá que não está competindo com ninguém.
O autor Pensa que este é o segredo: amar o que se faz. Talvez queira trabalhar com a cabeça, ou produzir algo com as mãos. Alguma destas coisas é o que você realmente ama. Ou seu interesse é meramente uma reação à pressão social?
“As únicas limitações que temos como raça humana são aquelas que impomos a nós mesmos...
Numa sociedade decadente, a Cultura, se for verdadeira deve também refletir decadência, e a menos que queira desacreditar e trair -
em relação à sua função social - a cultura deve mostrar o mundo
como mutável e ajudar a mudá-lo”.
Quando não tiver mais nada
Nem chão, nem escada Escudo ou espada O seu coração... Acordará
Quando estiver com tudo Lã, cetim, veludo Espada e escudo Sua consciência... Adormecerá
E acordará no mesmo lugar Do ar até o arterial No mesmo lar, no mesmo quintal Da alma ao corpo material
Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare
Quando não se tem mais nada Não se perde nada Escudo ou espada Pode ser o que se for, livre do temor
Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare
Quando se acabou com tudo Espada e escudo Forma e conteúdo Já então agora dá, para dar amor
Amor dará e receberá Do ar, pulmão; da lágrima, sal Amor dará e receberá Da luz, visão do tempo espiral
E quando não tiver mais nada Nem chão, nem escada Escudo ou espada O seu coração... Acordará
Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare Nitai Gauranga Jaya Gaura Hare
Quando estiver com tudo Lã, cetim, veludo Espada e escudo Sua consciência... Adormecerá
E acordará no mesmo lugar Do ar até o arterial No mesmo lar, no mesmo quintal Da alma ao corpo material
Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare
Nitai Gauranga Jaya Gaura Hare
Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare
Quando se acabou com tudo Espada e escudo Forma e conteúdo Já então agora dá, para dar amor Amor dará e receberá Do ar, pulmão; da lágrima, sal Amor dará e receberá Da luz, visão do tempo espiral
Amor dará e receberá Do braço, mão; da boca, vogal Amor dará e receberá Da morte o seu guia natal
Haraie nama krsna, yadavaya nama há (3x) Yadavaya madhavaya Krsna vaya nama há Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare
CLAVAL, P. Espaço e Poder. Rio de Janeiro : Zahar, 1978, p. 7-21.
ARAÚJO, Valdeí. O Arquivo e o Monstro. Resenha sobre o texto de RICHARDS, Thomas. The Imperial Archive: knowledge and fantasy of Empire. London, New York: Verso, 1993.
PORTELLI, Alessandro. A Filosofia e os Fatos. Narração, interpretação e significado nas memórias e nas fontes orais. Tempo. v. I, n.2. Rio de Janeiro, 1996. p. 59-72.
DEMO. Pedro. Ambivalências da sociedade da informação. Ciência da Informação, v.29, n.2, mai/ago/2000. Brasília-DF. IBICT, 2000, p. 37-42.
KRISHNAMURTI, J. O que você está fazendo com a sua vida?: Passagens selecionadas sobre grandes questões que nos afligem. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Era. 2008.
FILMES
Lawrence da Arábia, 1962. Direção David Lean.
Vênus Negra, 2010. Direção Abdellatif Kechiche.
Zeitgeist – the movie, 2007 – Dirigido por Peter Joseph. Disponível em
Encontro com Milton Santos – O mundo global visto do lado de cá: uma proposta libertaria para estes dias tumultuados. 2001. Direção Silvio Tendler.
Bram Stoker's Drácula, 1992 (EUA). Direção: Francis Ford Coppola.
The Matrix - 1999 (EUA) – Direção Andy e Larry Wachowski
Vale a pena destacar da Sinopse o seguinte: Em um futuro próximo, Thomas Anderson (Keanu Reeves), um jovem programador de computador que mora em um cubículo escuro, é atormentado por estranhos pesadelos nos quais se encontra conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro. Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima do Matrix, um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e corpos dos indivíduos para produzir energia. Morpheus, entretanto, está convencido de que Thomas é Neo, o aguardado messias capaz de enfrentar o Matrix e conduzir as pessoas de volta à realidade e à liberdade.
“ Estamos fazendo ensaios do que será a humanidade... Nunca houve”.
Milton Santos
[1] Luciana Nabuco – jornalista proteiforme - colaborou anotando tudo num esforço supra humano de por ordem em minhas idéias, e ajudou na escrita deste devaneio.
Seria mais fácil enrolar o céu com um pano do que obter a verdadeira felicidade sem o conhecimento de Si Próprio.
Upanishads
Quando comecei a meditar, eu estava tomado por ansiedades e medos. Sentia deprimido e com raiva.
Muitas vezes eu descarregava essa raiva na minha primeira mulher. Após duas semanas de meditação, ela se aproximou de mim e disse: “O que está havendo?”. Fiquei quieto por alguns instantes. Até que perguntei: “O que quer dizer?”. Ela continuou: “A raiva, aonde foi parar?”. E eu nem tinha notado a mudança...
Costumo chamar esse tipo de depressão e raiva de Sufocante Traje de Borracha de Palhaço da Negatividade.
Ele é sufocante e a borracha fede. Mas logo que você começa a meditar e a mergulhar mais fundo, o traje de palhaço se dissolve. E quando começa a dissolver, finalmente você se dá conta do quanto esse traje é pútrido e fétido. E quando ele se dissolve completamente você tem a liberdade.
A raiva, a depressão e o sofrimento são muito bonitos nos enredos, mas venenosos para os artistas e quem trabalha com arte.
São como torniquetes para a criatividade. Se você estiver preso neste torniquete, vai ser difícil se levantar da cama e mais ainda vivenciar o fluxo de criatividade e idéias.
Para criar é preciso ter clareza. Vocêtem que ser capaz de pegar as idéias.
As idéias são como peixes
Se você quer pegar um peixinho, você pode ficar em águas rasas. Mas se quiser um peixe grande terá que entrar em águas profundas. Quanto mais fundo mais poderosos e mais puros são os peixes.
Peixes enormes, abstratos e, realmente maravilhosos. Quanto mais você expande a consciência, a atenção, mais fundo é o mergulho nessa fonte, e maior o peixe que você pode pegar.
Meus 33 anos de pratica no programa de meditação Transcendental têm sido fundamentais para o meu trabalho com arte, e para todas as áreas da minha vida. Para mim, isso é uma forma de mergulhar mais fundo em busca do peixe grande.
Fonte: extraído do livro Em Águas Profundas, de David Lynch, editora Gryphus.
The only limitations we have as a human race is those wich we impose upon our selves...
As únicas limitações que temos como raça humana são aquelas que impomos a nós mesmos
Chico Science encontra Josué de Castro: Recife sob o signo do homem-caranguejo
por Moisés Neto
Citado nas letras de Science e em depoimentos que o poeta registrou na mídia, o cientista e professor Josué de Castro, recifense morto em 1973, é o autor do romance Homens e Caranguejos (1966) o qual foi lido por Chico com avidez enquanto formulava o conceito mangue. Este romance descreve o cotidiano de uma comunidade erguida num manguezal do bairro de Afogados, Recife na primeira metade do século XX. São pescadores de caranguejos, pessoas que tiram do mangue seu sustento. Suas casas construídas com o massapé, madeira e palha do local e sua principal alimentação os caranguejos, até as crianças eram criadas tomando mingau feito com o caldo (o “leite da lama”) destes bichos que “fervilhavam” nas margens do Capibaribe.
Seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejos. Seres anfíbios – habitantes da terra e da água, meio homem e meio bichos [...] parados como os caranguejos na beira da água ou caminhando para trás como caminham os caranguejos [...] habitantes dos mangues [...] dificilmente conseguiriam sair do ciclo do caranguejo, a não ser soltando para a morte e, assim, afundando-se para sempre dentro da lama [...] essa fossa pantanosa onde aguarda o Recife (CASTRO: 2001, p. 10-11).
A visão de Josué é ao mesmo tempo perturbadora e dinâmica. Expõe a fome de um povo que ao mesmo tempo brinca com o bumba-meu-boi, o pastoril, o maracatu e outros folguedos (p. 113) planejam uma revolução que tome a cidade das mãos dos ricos poderosos e dos políticos, mostrados como hipócritas e ladrões. O mangue aparece antropomorfizado:
agarrando-se com unhas e dentes (...) gamas fincadas profundamente no lado [...] cabeleira verde [...] braços numa amorosa promiscuidade [...] luta constante com o mar como se fossem trapos de ocupação” (ibid. p. 12).
Este clima de mangue vivo onde o vegetal, mineral e animal se confundem influenciou profundamente as concepções de Chico e Fred 04. O próprio manifesto “Caranguejos com cérebro” é calcado neste tema, este ninho de lama que Josué comenta: “onde brota o maravilhoso ciclo do caranguejo” e onde O bumba-meu-boi era apenas um pesadelo de faminto sonhando com boi-fantasma, que cresce diante dos seus olhos compridos, mas cujas carnes desaparecem de baixo das apalpeladas das suas mãos... (ibid. p. 21).
A representação do Recife nesta obra influência de João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardozo e Ascenso Ferreira. Ele descreve o cotidiano daqueles que migraram de sertão e da zona da mata para o Recife e aqui se misturaram aos miseráveis da metrópole.
São balaieiros carregando frutas e verduras, que vivem entre mosquitos e urubus, rostos magros, morenos, olhos negros e profundos, na Comunidade de Aldeia Teimosa onde alguns sonham com a revolução do proletariado. Lembremo-nos que quase 40 anos depois, em 2003, 54,9% da população do Recife ainda morava em favelas segundo o Jornal do Commercio (GÓIS, Ancelmo.“Recife-Favela”, Jornal do Commercio.Cad. 1, pág. 2, 29.09.03) – Segundo pesquisa do Ibam / Banco Mundial.
Corrosiva e às vezes sarcástica, a ironia do autor mistura-se ao lirismo de um final onde o menino João Paulo integra-se repentinamente à luta armada e desaparece no meio do combate à beira do mangue, às margens do Capibaribe, em seu desejo de libertação no meio daquele cheiro frio de lama podre, de terra morta em decomposição. E o narrador conclui:
São heróis de um mundo à parte. São membros de uma mesma família, de uma mesma nação, de uma mesma classe: a dos heróis do mangue (ibid. p. 43).
A palavra “nação” e este senso de comunidade com espírito revolucionário deve ter incendiado as idéias de Chico e seu ideal de representação do Recife. Muitos pescadores de caranguejos no romance cobriam-se de lama com a finalidade de fugir dos mosquitos. No clipe da música “Maracatu atômico” Chico e a Nação Zumbi aparecem cobertos de lama, como numa alusão aos pescadores do mangue. Ouso de neologismos também serviria de inspiração a Science, por exemplo: verbo “jiboiar”, ao se referir a capacidade da jibóia de engolir “um homem inteiro” e passar um mês digerindo-o (p. 61). Chico cria o verbo (neologismo) “urubuservar” na introdução de “Maracatu de tiro certeiro”, na parceria com Jorge du Peixe (CSNZ, 1994). Outro ponto em comum seria a zoomorfização: homens e bichos se confundem na narrativa de forma implacável. Science vai resgatar isto também em sua obra, só que forma menor naturalista e mais caricata. Os mocambos, descritos por Josué, aparecem também na lira scienciana como símbolo da moradia, do pobre no Recife.
Enquanto Josué opta por uma visão pessimista, o trabalho de Science, é, de certa forma, quixotesco. Os monstros contra os quais investe suas armas são produtos tanto da realidade quanto da sua mente e na sua obra encontramos o ser metamorfoseado. Se os heróis de Josué são frustrados, os de Science celebram a vitória sígnica:
A façanha de ser prova: consiste não em triunfar realmente – é por isso que a vitória não importa no fundo -, mas em transformar a realidade em signos. Em signo de que os signos da linguagem são realmente conforme às próprias coisas [...] o poeta é aquele que, por sob as diferenças nomeadas e cotidianamente previstas, reencontra os parentes subterrâneos das coisas” (FOUCAULT: 2002, p. 64-67).
O mangueboy Chico e as personagens do lugar-mangue recriado por Josué parecem se articular num mesmo contexto de realidade mágica e desgraçada. Ambos tateiam em busca de saída e de fazer a linguagem romper seu parentesco com a realidade opressora e terminam criando uma alegoria, instaurando um pensamento novo. E assim surge uma reviravolta cultural na cidade do Recife, marca-se um estilo, uma época, um período, uma ruptura, uma descentralização, um deslocamento. Algo que rompesse estruturas arcaicas. Hoje analisamos o Mangue já com um certo distanciamento daquele período, mas é possível detectar onde deu-se a ruptura e quais as suas possibilidades. Vejamos o que Foucault argumentou sobre esta questão da divisão da cultura em períodos:
Pretende-se demarcar um período? Tem-se porém o direito de estabelecer, em dois pontos do tempo rupturas simétricas, para fazer aparecer entre elas um sistema contínuo e unitário? A partir de que, então, ele se constituiria e a partir de que, em seguida, se desvaneceria e se deslocaria? [...] que quer dizer inaugurar um pensamento novo? [...] uma cultura deixa de pensar como fizera até então e se põe a pensar outra coisa e de outro modo [...] o problema que se formula é o das relações do pensamento com a cultura. (ibid., p. 69).
A ruptura que podemos observar nos estudos de Josué aponta para a desigualdade econômica como responsável pelo fenômeno social da fome numa época em que se acreditava que ela resultava do acelerado crescimento populacional desproporcional ao aumento dos recursos naturais, já Science e outros poetas do Manguebeat lutavam por romper com os feudos culturais que estagnavam Recife com seus discursos reacionários. Josué foi deportado pela ditadura nos anos 60, mas seu legado serviu de base para os mangueboys que sedimentaram sua luta e unindo estas idéias à música e à poesia no início dos anos 90. Letras como “Rios, pontes e overdrives”, “Antene-se”, “Da lama ao caos”, “Risoflora”, “Manguetown”, “Corpo de lama” e outras são exemplos do que estamos afirmando. Elas se aproximariam o que Foucault questionou como sendo “ruptura”, inauguraram o “pensamento novo” e buscaram novas relações entre o pensamento e a cultura.
A cultura popular foi sacudida pela nova Cena. O governo logo percebeu que seria conveniente apoiar os mangueboys. Inicia-se a fase das negociações. O antigo regime parece querer cooptar a nova revolução, mesmo olhando-a meio de banda. E Science inicia negociações com Ariano Suassuna, dialoga com Alceu Valença. Nos moldes do antropólogo Renato Ortiz a tradição e modernidade mesclam-se no Brasil, país onde a ruptura nunca se realiza plenamente nem deixa de ser tentada, como aconteceu nos anos 60 com a Tropicália e o Cinema Novo.
A movimentação política, mesmo quando identificada como populista, impregnava o ar, impedindo que os atores sociais percebessem que sob os seus pés se construía uma tradição moderna (ORTIZ: 2001, P. 110).
Como ressaltamos antes, o Mangue, em plenos anos 90, ainda ressaltava ícones como cangaceiros e reforçava mitos como o do nordestino ser um tipo desengonçado, mas não é uma poesia, nem uma música, que expresse conformismo, ou que demonstre uma unidimensionalidade das consciências. É uma postura construtiva que surge no auge do poder da indústria cultural sobre as massas, o final do século XX. Fala de conflitos e exige a luta dos desfavorecidos numa sociedade que pode ser vista sob diversos ângulos. A ação é considerada na poesia do mangue como foco central na orientação dos comportamentos, estimula-se a realização das vontades e a retomada do espaço público.
Uma posição mais extremada é certamente a de Adorno, quando descreve a sociedade de massa, como um espaço onde praticamente não existem mais conflitos, uma vez, que a luta de classes deixa de existir e a própria possibilidade de alienação se torna impossível. Sociedade marcada pela unidimensionalidade das consciências, o que reforça a integração da ordem social e elimina a expressão dos antagonismos (ibid. p. 150).
O Mangue carrega consigo a idéia de libertação que não se vincula a uma classe específica, embora o universo poético centre-se nos pobres, mas na mente de todos. Propõe a transformação da própria concepção do que é cultura, justamente numa época de mudança de parâmetros na economia global com o fim da Guerra Fria.
Marcada pelos estigmas da contracultura a poesia de Science exibe o ridículo e o êxtase do ser e anda na corda bamba entre o racional e o irracional. Como entender essa discrepância? Minha tese é de que Science propôs a redefinição desses e outros conceitos. Sua arma, como Barthes tanto sugeriu como sendo a melhor para se revolucionar, foi a linguagem. E Chico usou a língua do povo do Recife. Como Josué foi buscar nas camadas de baixa renda da população da cidade o motivo da estagnação dessa metrópole-lama.
II
De algum modo, a representação do Recife uma obra de Science comprovou o primado do significante sobre o significado, da significação sobre a representação, da semiose sobre a mimese. Não se buscava a realidade e sim autonomia da língua em relação à realidade, o signo em fragmentada relação com o seu objeto, como se o referente não existisse fora da linguagem e dependesse da interpretação. Detectamos função poética colocando em evidência o lado palpável dos signos e tornando evidente que o poeta selecionou e combinou de modo particular e especial as palavras para daí obter um ritmo, que lhe era intuitivo. Chico escutou muitos tipos de música e tinha aptidão nata para trabalhar a linguagem de forma musical. Por ter tido contato com comunidades de baixa renda como as de Peixinhos, Rio Doce, Ilha do Maruim e outras do Grande Recife, ele absorveu o linguajar, a sonoridade e aproveitou-se da psicodelia para ressaltar o inusitado das imagens. Recife perdia o peso do ser, se esvaziava e se enchia tornando-se diferente a cada verso como se existisse no mundo numa hora estranha onde ontem, hoje e amanhã se confundiam.
No trabalho poético com o signo lingüístico, o significante Recife é substituído às vezes por “Manguetown” como num rompimento de um contrato e a celebração do novo signo como meio de superar ou resolver uma dificuldade. A esperança é camuflada pelo gozo de ser expresso na exploração máxima da sonoridade das vogais, alongando-as e interpretando as palavras como se houvesse uma exclamação após cada uma delas. O senso de espetáculo e/ou festa parecem impregnar cada uma das composições. Um atrevido arrebatamento é posto em ação. O “real” da vida ou o que seria o “referencial” transformado em linguagem torna-se aventura festejada.
Ao comentar os textos de Barthes e Mallarmé, o professor Antoine Compagnon comenta algo que em muito se assemelha com o nosso estudo sobre Science:
Barthes cita, em nota, Mallarmé para justificar essa exclusão da referência e esse primado da linguagem, porque é exatamente a linguagem, tornado-se, por sua vez, a protagonista dessa festa um pouco misteriosa, que se substitui ao real, como se fosse necessário, ainda assim, um real. E na verdade, salvo se conduzirmos toda a linguagem a onomatopéias, em que sentido ela pode copiar? Tudo que a linguagem pode imitar é a linguagem: isso parece evidente (COMPAGNON: 2001, p. 101).
Poesia e realidade transformadas em produtos comerciais onde o que parecia imitado não eram os habitantes do Recife, mas a ação deles, o modo como eles se expressam. Muito mais o artefato sonoro-poético produzido pelo “imitador” (Chico) do que o objeto imitado, o homem pobre e a cidade estigmatizada. No arranjo que o poeta faz não importava mais se sua interpretação era fruto do engajamento ou da alienação. A natureza, o lugar, a poesia, a cultura e a ideologia parecem de tal forma estar amalgamados, que, olhar o que aconteceu no Recife de Chico Science faz-nos muito mais pensar no que poderia ter acontecido. O absurdo poeta-caranguejo era persuasivo ao desconstruir antigos conceitos de representação da cidade ou da “terra dos altos coqueiros / de beleza soberba estendal”, da “nova Roma, de bravos guerreiros / Pernambuco / imortal, imortal” como está na letra do livro de Pernambuco, cujo autor é Oscar Brandão da Rocha.
Por isso não abordamos Science com uma aparelhagem estruturalista: optamos pelos estudos culturais, por analisar a postura do poeta diante de um contexto que lhe era adverso e como ele reverteu esta situação através da blague, do humor afrociberdélico numa particular interpretação daquele momento, o final do segundo milênio, os anos 90 na Manguetown, provocando nova ilusão ao substituir a realidade pela sua representação.
São paradoxais as relações da poesia de Chico com o Recife: não podem ser definidas nem como miméticas nem como antimiméticas. A cidade recriada parecia com a anterior depois de teatral metamorfose. Seria impossível, neste caso, eliminar totalmente a referência, mas a urbe aparece como alucinação, ficção, ilusão poética como num show de mágica: “sumiu”, “voltou” mas não é a mesma: é um truque. Havia relações, agenciamentos, mas era o Recife como se fosse outra cidade e o habitante transforma-se em turista acidental ou espectador de si mesmo, ouvinte da própria história que parecia só existir por estar sendo recontada daquele modo. Eis o valor heurístico, o valor da arte de inventar: a representação scienciana surge como ápice de um século que em Recife foi marcado pela procura da própria identidade (Regionalismo e o Movimento Armorial do paraibano Suassuna que se desenvolveu nesta metrópole), um projeto controverso e cheio de perspectivas numa era onde a cibernética popularizou-se.
Com a digitalização e seus efeitos de onipresença e onividência (graças à ubiqüidade do sujeito nas redes telemáticas), ser e estar não são verbos que possam mais se colar semanticamente, (como na língua inglesa). A identidade desenraiza-se, libera-se de suas contenções físicas localizáveis num espaço determinado e aceita possibilidades inéditas de heterogeneização ou mesmo de fragmentação [...] a consciência do sujeito assim como as relações intersubjetivas não podem deixar de ser afetadas [...]Os corpos tornam-se vulneráveis à irradiação viral dos signos, e as identidades podem ser produzidas como um bem de mercado, ou então como qualquer figuração delirante na realidade sintética do ciberespaço (SODRÉ, 1996. p. 178-179).
E a “figuração delirante” na obra de Chico envolve as tradições e a literatura locais misturando-as, como viemos afirmando, com a tecnologia nos anos 90, que atingira as massas de forma avassaladora e a internet que ajudou a estabelecer novos parâmetros na mídia. Os mangueboys puderam contar já com estes recursos que se encaixavam com a proposta da cidade reinventada, agora virtual e pronta para ser despachada para qualquer lugar do mundo onde houvesse acesso à rede. Colaram o que viam com o que ouviram dizer:
Este corpo de lama que tu vê
é apenas a imagem que soul
este corpo de lama que tu vê
é apenas a imagem que é tu
[...] eu caminho como aquele grupo de caranguejos
ouvindo, a música dos trovões
[...] há muitos meninos correndo em mangues distantes
[...] essa rua de longe que tu vê
esse mangue de longe que tu vê
é apenas a imagem que é tu
(CSNZ, 1996)
Nesta letra de Science chamada “Corpo de lama”, além da liberdade gramatical a liberdade de interpretar os signos como se fossem almas ou até ritmos musicais (a imagem que “soul” – “alma” em inglês e um “ritmo” de música). A “música dos trovões”, que os caranguejos escutam é uma referência ao romance de Josué de Castro Homens e Caranguejos, no qual, aproveitando-se que os caranguejos ficavam desnorteados em dia de tempestade com trovões, os homens forjavam barulhos para simular esta situação e capturá-los assim. O “Corpo de lama” também é referência aos pescadores do mangue, metonímia de determinada população miserável da Manguetown que agora parece sem o cheiro na mídia. Com o mangue e seu aparato tecnológico a cibernética se instala na cultura recifense definitivamente: Recife caiu na rede, comunhão entre homem e máquina. A transmissão de um indivíduo de um lugar para o outro deixa de ser uma hipótese.
Tanto a proteína (humana) como o metal (máquina) seriam transcendidos pela realidade de informação, suscetível de transmissão eletrônica [...] a mutação se daria pelo acoplamento do corpo humano a dispositivos maquinais [...] montagem de personalidades combináveis [...] ritmo [...] a identidade viabiliza-se como um jogo de signos realizados por imagens, que circulam aceleradamente, de forma contagiante, à maneira de um processo viral [...] simulacros que se incorporam aos sujeitos, criando outro tipo de relação com o mundo físico. (SODRÉ, 1996, p. 173-174).
O “contágio”, ao qual se refere Sodré, era justamente a proposta do mangue. Do mesmo modo que os habitantes/consumidores da Manguetown se transformaram em caranguejos ao beber cerveja feita com água do mangue, com baba de caranguejo, transformando-se em seres mutantes. A contaminação sígnica:
O indivíduo atribui-se o nome que deseja e pode neste mesmo ato inventar e viver uma identidade alternativa [...] superação da realidade corporal primitiva [...] que no fundo seria pura desordem e falta de razão [...] multifacetado, o sujeito, que se define como suporte permanente de traços acidentais, depara com a sedução imagística e assiste à relativização da permanência pela mobilidade veloz das máscaras, das variadas posições de indivíduos-atos, inerentes à pessoa [...] é tentador buscar na ficção científica inspirações utópicas [...] de mutações psíquicas e corporais” (SODRÉ, 1996. P. 175-177). LEIA MAIS AQUI SOBRE A SEMANA EM HOMENAGEM A CHICO SCIENCE E AS CONTRADIÇÕES HISTÓRICAS DO MOVIMENTO MANGUEBEAT
In a decaying society, art, if it is truthful
numa sociedade decadente, a ARTE, se for verdadeira
Primeiro devo pedir desculpas pela ausência. Ando por aí sem muita cabeça para escrever, e os recursos estão precários. Agora, um pouco mais sobreo e consciente do que aconteceu, volto aqui nesta mesma cadeira para tentar compilar as experiências destes tempos de afastamento. E a viagem foi longa e agitada. Computados mais ou menos dois mil quilômetros, passando da região sudeste ao centro-oeste do Brasil, depois de me ver arrancado à força da cidade maravilhosa, acabei curtindo a viagem e, como sempre, procurei pelas informações mais interessantes e suas possibilidades. No princípio, não entendi onde estava e nem como faria as coisas acontecerem, tanto foi a desorientação que não consegui sacar a câmera da mochila e fazer alguns cliques da nova residência. Nem ao menos dei-me conta da diversidade que a "pequena" cidade de Dourados apresentava. As pessoas apresentavam-se de forma heterogenia, o comércio diversificado e a surpresa de encontrar um complexo de lojas num shopping central na cidade, que não deixa-a distante de qualquer outra cidade voltada para o consumo em qualquer lugar do planeta. E todas as mazelas que a acompanham vieram juntas com a enxurrada que caia do céu e deixava barrenta as ruas que dão acesso ao centro desta cidade. No colocar-me em outro campo cultural e deslocar-me entre contextos contrastantes, fez-me olhar para o próprio lugar de onde vim e onde, a partir de hoje viverei. Levado a estabelecer paralelos e compreender as divergências das vivências em diferentes rotinas e situações, a latitude contrastante no roteiro Cidade Maravilhosa-Interior-Megalópole engendrou em mim o clímax do entendimento. Sem dúvidas, deslocar-se é algo prazeroso, libertador e criativo. A importância e o choque de culturas foi crucial para entender este momento e "cair a ficha". O entendimento só foi assimilado após visita à FAAP, já no meio da viagem de volta ao Rio, parei em sampa para visitar e rever pessoas especiais. Foi uma experiência importante porque o contato com a arte e ajuda de um guia maravilhoso e solícito, surgiu o supervisor monitor de classes Marcio, a quem agradeço pelo tour na faculdade de artes plásticas em São Paulo, que foi a chave para entender o propósito da viagem. Logo de cara, tropecei no que há de mais rico de um movimento que cativa-me e ao mesmo tempo me perturba a mente - mostra de expressionismo - entrega aos olhos da alma uma riqueza de sentidos traduzidos em traços simples e técnicas chapantes. Algo que fez de imediato pensar sobre meus próprios trabalhos, além de lançar um olhar crítico nas filosofias e movimentos a que venho investigando. O suporte é simples e acessível a quaisquer mortais, entre naquins e gauches, xilogravuras, litos e pinceladas fortes, fui imediatamente arrebatado para dentro das angústias e incertezas que aquelas imagens passavam, e assim pude instantaneamente compreender, intuitivamente, o significado de que só é possível ser verdadeiro dando um passo à frente, mesmo que a direção seja desconhecida. Sabendo da importância de estar em movimento mas não vivendo a radical experiência, não se pode ser real, e aí reside o verdadeiro significado do ser e estar vivo. Por mais livros e informações que recebemos na confusão de nossa rotina, somente a real experiência e a radicalidade dos eventos sucessivos é capaz de traduzir, em nossos desejos, a vontade inexorável de expressar e comunicar nossa realidade de forma expressionista. Porque é disso que se trata a vida, é por isso que estamos aqui consumindo, não apenas produtos e sim sensações, sentidos, aspirações, posicionamentos sociais, estes se concretizaram de forma dramática em mim a partir da clara síntese de Gilles Lipovetsky, que foi outro achado na terra da garoa. Enquanto a chuva caía - O Império do Efêmero - foi o abrigo mais seguro e promissor, caminho para seguir a viagem nesta compreensão. Como andarilho, me vi incitado a vencer os limites estabelecidos pela minha própria cidade, e ao mesmo tempo motivado a criar as oportunidades, lançando mão de recursos até então não explorados. A escassez em meus trabalhos poderia ser em si mesma a motivação para representa-los. Prometo reunir aqui algumas ilustrações e fotos que fizeram parte desta viagem em breve. Então retorne neste post para conferir as atualizações.
legenda artes fig.1 Marco Paulo Rolla. A coqueteleira, 1991, acrílico em tela. fig.2 Marina Cram.ST,_1967. Nanquim e guache papel fig.3 Marina Caram, Menina pobre, menina rica,1954, nanquim no papel fig.4 Emile Tuchband. Cristo, st, óleo sobre tela fig.5 Marco Paulo Rolla. Lavajato, 1991, acrílica em tela
O Museu de Arte Brasileira da FAAP apresenta
A partir de 15 de fevereiro, a exposição Marcas do Expressionismo, que reúne cerca de 90 obras de seu acervo, entre pinturas, gravuras e desenhos. O visitante terá a oportunidade de apreciar obras de artistas brasileiros e estrangeiros radicados no Brasil, representantes das artes visuais nacionais do século XX e da primeira década do século XXI. Obras de Anita Malfatti, Flávio de Carvalho e Oswaldo Goeldi, notáveis artistas do movimento modernista brasileiro, são as grandes atrações da mostra pela quantidade de obras que os representa, pela qualidade artística das mesmas e, fundamentalmente, por serem os mais significativos expoentes do Expressionismo nas artes visuais brasileiras. As fortes e fragmentadas linhas encontradas nos desenhos de Anita e Flávio e nas gravuras de Goeldi são exemplos dessa manifestação, assim como a ousada e impetuosa paleta de cores utilizada por estes dois primeiros artistas. Participam da exposição, também, desenhos de Marina Caran e Heinz Kühn, fortes nas formas e conteúdos; pinturas de Juarez Magno, Pierre Chalita, Émile Tuchband e Otoni Gali Rosa, produzidas nas últimas décadas do século XX, e obras de artistas mais contemporâneos como Herman Tacasey e Marco Paulo Rolla. Segundo o curador da mostra, José Luis Hernández Alfonso, o objetivo da exposição é constatar que o cerne dessa tendência artística se manteve atuante quanto aos seus fundamentos conceituais e seus aspectos formais, apesar do tempo transcorrido desde seu surgimento e graças à solidez atemporal dos valores artísticos, gerados na busca por revelar os caminhos que levam ao mundo interior do ser humano e sua existência: análogos e universais sempre.
Expressionismo
O começo do século XX, na Europa, singularizou-se por um dinâmico movimento cultural nas diferentes esferas do conhecimento humano. Mudanças formais e conceituais deram origem a tendências artísticas de vanguarda que compartilhavam novas visões e interpretações da arte e cujos representantes se autoproclamavam condutores de uma cultura que estava à frente de seu tempo. Surgidas no caminho de um espaço histórico cercado pelos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial e se prolongaram até o término da Segunda Guerra Mundial, as denominadas “vanguardas históricas” foram todas elas influenciadas – em conjunto ou indistintamente – tanto pelos reais problemas sociais daqueles acontecimentos bélicos – devastação, miséria e mortes –, como por suas consequências psicológicas – angústias e pessimismos em escala individual e coletiva. No comportamento das vanguardas intervieram também, significativamente, os progressos científico-tecnológicos e sociais e suas decorrências na vida pessoal e social dos indivíduos motivados, entre outras coisas, pelos avanços da industrialização e dos meios de transporte, os novos tipos de emprego e costumes na vida das pessoas, o mercantilismo e a cultura de massas. Em sentido geral, no imaginário estético dos protagonistas das vanguardas, a arte deveria ter uma afinidade integral com a vida, a sociedade e a realidade do ser humano, a fim de transformá-lo em um espectador ativo e mobilizado, capaz de apreender e interpretar a obra de arte.
Entre essas manifestações artísticas, o Expressionismo, surgido na Alemanha, reuniu artistas de diferentes níveis intelectuais e produções marcadas pela diversidade formal. O movimento defendia uma arte voltada para a interiorização da criação artística, ou seja, mais pessoal e intimista, em que predominava a visão do artista, sua reflexão individual e subjetiva. Do ponto de vista formal, o Expressionismo passou a ser entendido como um modo de deformar e alterar a realidade para expressar a natureza e o ser humano de uma maneira mais subjetiva, dando primazia à revelação dos sentimentos, mais do que à descrição objetiva da realidade. Assim concebido, o Expressionismo invadiu todo o universo artístico das vanguardas, desde o Fauvismo, o Futurismo e o Cubismo até o Dadaísmo e o Surrealismo. Interpretado nesse sentido, e seguindo os passos das artes visuais até os dias de hoje, pode-se convir que a essência do Expressionismo passou além de seu tempo, ao vê-lo extrapolar qualquer época e território.
SERVIÇO
Data: de 15 de fevereiro a 29 de maio de 2011 Local: Museu de Arte Brasileira da FAAP Endereço: Rua Alagoas, 903 Higienópolis Informações: (11) 3662-7198 E-mail: museu.secretaria@faap.br Horários: de terça a sexta, das 10h às 20h. Sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h. (Fechado às segundas-feiras, inclusive quando feriado) ENTRADA FRANCA
Ain´t over until it´s over - a viagem ainda não acabou
Em sentido geral, no imaginário estético dos protagonistas das vanguardas, a arte deveria ter uma afinidade integral com a vida, a sociedade e a realidade do ser humano, a fim de transformá-lo em um espectador ativo e mobilizado, capaz de apreender e interpretar a obra de arte.
Pensa escreve desenha cria imagina planeja inspira observa transforma emociona convence comunica mensura anuncia e ainda por cima de um jeito conceitualmente original.
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Arte e Fotografia Limitações superadas e transcendidas por meio da arte
by Caboco Satélite Uma canja com um pouco de tudo. Um potpourri louco pra sacudir o esqueleto e espantar qualquer uruca | pesquisa: Richard Verdoorn | imagem: santo Agostinho e o diabo com o livro dos vícios, por Micheal Pacher (1475)